Terça-feira, Agosto 31, 2010

Achados e perdidos

Oh! musa do meu fado
Oh! minha mãe gentil
Te deixo consternado, no primeiro abril
Oh! não sê tão ingrata, não esqueça de quem te amou.
e em tua densa mata, se perdeu e se encontrou.
-- Fado Tropical, Clara Nunes


De acordo com esta reportagem, homens gastam R$ 5.400 a mais durante a vida em combustível, apenas por não se dignarem a pedir informações quando estão perdidos.

Não que isto seja um grande problema econômico —provavelmente nós homens gastamos 100 vezes menos que elas durante a vida com retail therapy— mas é um traço real e curioso da masculinidade. Sou o primeiro a admitir que muitas vezes perdi tempo desnecessariamente no trânsito por não pedir informações. Medo de parecer perdido (como é que não se parece perdido quando se está perdido?).

Mas, muitas vezes, eu diria até que na maior parte das vezes em que estou "perdido", gosto da aventura de achar meu caminho sem ajuda externa. Deve ser coisa do instinto aventureiro mesmo; eu vejo uma estrada vicinal desconhecida e posso ouvir ela dizendo "duvido que você descubra pra onde eu vou.

Dizem que homens são mais destros em ler um mapa ou em localizar-se. Será mesmo? Na primeira vez que tentei fazer isso na época do escoteiro, consegui me perder com mapa, bússola e tudo, e em contato com os colegas via VHF. Aliás, me perdi duas vezes no mesmo dia! E não foi no mato, foi numa localidade rural. Desfilar pelado no 7 de setembro não teria sido tão humilhante.

É preciso treinar um pouco para pegar o jeito da coisa, e para treinar localização é preciso estar disposto a perder-se em primeiro lugar. Adquirir destreza em qualquer coisa tem seu preço.

Aprendi outra coisa nas aventuras de escoteiro: que pedir informações é quase inútil, a maioria das pessoas também não sabe onde está ou te dá informações deliberadamente falsas.

Enfim, é o tal do dimorfismo sexual. Homem se diverte se perdendo e (talvez) se encontrando, mulher não. É como é. Quando levo a minha esposa nos passeios pelo mato, e não estou 100% certo de onde estou, ela começa "Essa estrada não vai dar em lugar nenhum!", "Estamos perdidos!", "Pare e pergunte pra alguém!", "A gente vai cair na grota!" e por aí vai. O desconforto com a situação é evidente. Mas eu levo ela pra essas roubadas assim mesmo :)

Sábado, Agosto 28, 2010

Audiófilos ou não...

... aqui está um texto que realmente vale a pena ser lido, por quem se interessa minimamente por som de qualidade:

http://www.nutshellhifi.com/library/speaker-design1.html

Aliás, os demais artigos deste mesmo site também são muito bons. Alguns são contaminados pelos cacoetes de audiofilia do autor. Quando ele começa a criticar a "baixa" taxa de amostragem do Compact Disc, é onde começa a "viagem". Aliás, é uma espécie de cacoete padrão ou marca registrada dos audiófilos, criticar o CD. Deve ser algo que eles fazem para reconhecer-se uns aos outros, não é algo a ser levado a sério.

Mas, se você conseguir filtrar esses cacoetes, verá que há muito conteúdo interessante, de nível realmente superior. Você nunca mais olhará para um aparelho de som com os mesmos olhos.

Algumas verdades pinçadas do texto sugerido:

* Alto-falantes são o calcanhar-de-aquiles dos aparelhos de som.

* Os aparelhos valvulados antigos soavam mal por culpa dos alto-falantes; com alto-falantes modernos, constata-se que amplificadores à valvula simples e baratos soam melhor que a maioria dos modernos amplificadores transistorizados. O artigo explica os porquês.

* Ainda assim, os mais baratos amplificadores transistorizados, mesmo os encontrados em caixinhas de som de computador, costumam ser injustiçados pelos alto-falantes. Amplificadores realmente ruins e alto-falantes realmente bons são igualmente raros.

* Estatísticas como THD (total harmonic distortion) de um amplificador e análise espectral ("pink noise") de um alto-falante são mais argumentos de venda do que reais indicadores de qualidade. Mais ou menos como a "potência PMPO", que hoje em dia já não engana mais ninguém.

Quinta-feira, Agosto 26, 2010

Podcast político

O que era para ser um podcast técnico do #d00dz, acabou virando um podcast político, sobre neolulismo e outros assuntos afins.





URL: http://d00dz.org/~ruda/podcast-3.mp3

Sábado, Agosto 21, 2010

Sabadão do trem (mais um)

Para quem não quer saber da minha conversa fiada, vou fazer o favor de passar logo no início do post os links para a galeria de fotos do Flickr e a playlist do YouTube correspondentes à caçada de hoje. Ainda estou subindo os videos, amanhã ou segunda (23/8) devem estar todos disponíveis.

Fui de novo ao Rio Natal, e de novo para fotografar/filmar a maria-fumaça, e o que mais aparecesse. Como disse minha esposa, "se eu soubesse que você ia pra lá DE NOVO, tinha atrasado o relógio para você perder a hora!". Enfim, aquilo lá é sagrado para mim, eu poderia ficar por lá semanas seguidas, visitando cada cantinho. Os índios não têm esse negócio de serem ligados à um pedaço de terra em particular, e por conta disso criam reservas etc.? Não sou muito simpático à causa indígena, mas digamos que hoje em dia eu "compreenda" este argumento.

Cheguei cedo à igreja do Rio Natal e fui procurar lugares mais altos para filmar de um ângulo diferente. Entrei no cemitério mas, apesar de alto, não dava ângulo para filmar o trem em si.

Aí aproveitei para dar uma olhada nas lápides. Sempre fico surpreso com a quantidade de crianças e até bebês enterrados em cemitérios mais antigos. Pensar que há poucas décadas crianças morriam aos montes. Este cemitério parece ter sido "fundado" por volta de 1950 e é pequeno. Num outro, da Estrada da Ilha, aberto em 1900, dava pra ver as "ondas" de mortalidade infantil, provavelmente epidemias de doenças: um agrupamento de túmulos infantis no ano de 1904, logo ali outro montinho em 1907... e sempre crianças; os adultos morriam como hoje, de forma espalhada na linha do tempo.

Note que há flores recentes no túmulo da foto. Para alguém, a Lúcia ainda faz falta. Ao menos ela escapou das piadas a respeito do sobrenome, que fatalmente a perseguiriam na escola :)

Da última vez que fui para aqueles lados, minha esposa viu um vagão tombado perto do centro de Corupá. Vantagens de ter alguém além do motorista a bordo. Desta vez, tratei de ir olhar mais de perto, e prestar meus respeitos ao vagão morto. Acho que usei um caminho de propriedade particular para chegar lá, mas não levei tiros.

Tentei encontrar alguma reportagem sobre este acidente, sem sucesso. Foi um descarrilamento (há marcas nos dormentes indicando que a roda andou sobre a madeira por um bom trecho) e recente, porque há menos de um mês não havia sinais de ferrugem.

O dia começou devagar mas terminou bem. Voltando do Rio Natal, encontrei três trens de carga! Um deles subindo, o que me "obrigou" a voltar lá para cima. Realizei o desejo de filmar um trem de carga passando pela estação abandonada e também ao lado da igreja. Em Corupá, mais um. Em Jaraguá do Sul, ainda outro!

Algumas filmagens foram feitas "em dois ângulos ao mesmo tempo", a câmera melhorzinha numa base fixa (leia-se: no chão) e o celular na mão, para o Rudá reclamar da minha tremedeira.

A maioria das fotos e das filmagens foi feita com o celular N900 da Nokia. Seguindo a linha da semana passada: brincar com uma câmera limitada. E também conferir a competência do mesmo na filmagem.

Em condições favoráveis, o N900 tira fotos bonitas, como a da esquerda. Em condições sub-ótimas... digamos que eu sinto falta do N95. (Também tenho alguma curiosidade para saber como se saem os Android e iPhone.) Tamanho de lente é como cilindrada de motor, é o que define a potência e não há substituto, por mais válvulas ou megapixels que se adicionem.

E é isso aí. Segue o playlist "embarcado" no post, enjoy.

Quarta-feira, Agosto 18, 2010

Esnobismo em números, e um "causo"

Este artigo do Gizmodo, sugere que possuir um telefone "velho" em Nova Iorque (cujo código de área é 212) é um fator de destaque social. Grande sacada do Gizmodo. A gente acaba fazendo esse tipo de distinção até sem perceber.

Quem nunca fez pouco de uma empresa porque o telefone de contato começava com 9 (celular)? Os mais "nerds" inclusive sabem as faixas de telefones "fixos" do SkypeIn e ficam automaticamente desconfiados a respeito de entidades ou pessoas que os usam. Ou uma empresa cujo CNPJ começa com zero-zero, que costumava ser atribuído a microempresas.

Embora eu nunca use crediário, a mocinha do cadastro da loja via de regra não sabe disso, e eu sempre forneço o telefone celular primeiro. Aí ela dá a senha: "tem um número alternativo?" e eu a contra-senha: um número de telefone que começa com 3, nitidamente bem-vindo, que abriria portas.

Ou naquela vez que abri uma poupança na Caixa, não levei comprovante de residência, mas a mocinha perguntou "vem cá, você tem telefone fixo?" e tudo estava resolvido.

Numa cidade razoavelmente grande, é possível saber em que área mora uma pessoa pelo simples prefixo do telefone, e há quanto tempo ela está lá. Em Joinville, 3425 é "Zona Norte", costumava ser um handicap, mas agora a Zona Norte é desenvolvida e 3425 é "Zona Norte das antigas". Um 3427 é um pouquinho menos antigo. Já um 3454 desperta desconfianças, pois é Nova Brasília ou Morro do Meio. (Se eu solicitasse um telefone novo *hoje*, na área onde eu morava em Joinville, me dariam um 3454.)

E depois de cada prefixo, tem o número do terminal, que de certa forma indica a "ordem de chegada". Obviamente isto vai perdendo o sentido ao longo do tempo, porque os cancelamentos vão causando a reciclagem dos números. Mas o fato é que cancelamentos de telefone fixo são infreqüentes e a seqüência numérica ainda "entrega' quantos anos o sujeito vive naquele lugar. Basta saber a "idade" de mais alguns telefones da mesma central. Quando mudei-me para cá, lembro de pelo menos uma pessoa me dizendo "você mudou faz pouco tempo, né?" assim que informei meu telefone.

Se for pensar direitinho, um número de telefone diz muito sobre você. Faz pensar que os números deveriam ser completamente aleatórios, talvez até mesmo descartáveis. Já considerava paranóia alguém tirar seu número da lista telefônica e do 102, hoje acho que é uma medida de segurança bastante razoável, essencial até.

É claro, basear confiança num simples número pode ser uma furada. Me lembrei do "causo" a seguir:

Um amigo vendeu-me um telefone que ele até então alugava. Isso em 1998, quando aluguel de telefones era um negócio em extinção, mas ainda existia. Devo ter pago 200 reais; um telefone ainda valia isso na época, pois a instalação era imediata, enquanto um novo demoraria algumas semanas. Casualmente, este amigo mencionou que o ex-locatário não era bom pagador.

Logo começaram a pintar ligações de cobradores e "clientes", procurando pelos ex-locatários. Tratava-se de um casal que fazia "programas", atendiam ao gosto de qualquer freguês, o leque de "serviços" seria material para uma aula de análise combinatória.

Durante dois ou três anos ligou gente perguntando "quanto é o programa" (o mais comum era "eles" procurando os serviços "dele", sacou?). Esses dois deviam ser muito bons no que faziam, ou a carência do povo é muita.

Eu deixava o telefone desconectado da tomada e usava só para Internet, até que alguém reclamou para a BrasilTelecom e apareceu um técnico lá em casa "porque estão tentando ligar para você e não conseguem". Isso num sábado à noite! Imagino com que veemência a reclamação foi feita. O jeito foi reconectar o aparelho.

Os mais engraçados eram os cobradores. Um deles ficou insistindo, custou a acreditar que eu não tinha nada a ver com o casal 20. Aí eu comecei a me aborrecer, e perguntei afinal de contas quanto eles estavam devendo. "3200 reais." Isso em 1999, o dinheiro valia o dobro que hoje.

"Cara, como é que você vende 3200 reais de roupas a crédito para dois desconhecidos?" eu perguntei, meio que sem querer, não deu pra segurar o espanto. "Pois é né, a gente precisa vender e...". respondeu o coitado, nitidamente envergonhado. Mas a espontaneidade da réplica convenceu-o que eu não tinha mesmo nada a ver com o peixe.

Aposto que se for um cara honesto na loja dele e quiser comprar 300 reais fiado, não vai conseguir. Teria o cara confiado tanto num número de telefone "das antigas", como de fato era aquela linha?

Sábado, Agosto 14, 2010

Mais um train pr0n, de leve

Hoje a caçada ferroviária foi magra, a safra da soja já deu o que tinha que dar. Mesmo no porto o movimento estava escasso. Mas sempre se acha alguma coisinha, e peguei este trem sobre o aterro do Canal do Linguado:

A foto "cropada" acabou virando uma pseudo-panorâmica (clique para ampliar). As fotos e filmes foram feitos com um Nokia N85 que estava encostado por aqui -- às vezes tem sua graça usar uma câmera ruim para ver o que acontece.

Para quem não sabe, o Canal do Linguado é um estreitamento da Baía da Babitonga, entre o continente e a Ilha de São Francisco. A foto ao lado mostra o trecho sul da Baía.

Por ser estreito e com uma ilha no meio, o Canal do Linguado foi o ponto escolhido para a travessia da ferrovia, e também da rodovia. Segundo Henry Henkels, uns 90% do canal foram inicialmente aterrados e uma ponte ferroviária cobria os 10% restantes. A passagem restante, muito mais estreita, tinha correnteza muito mais veloz que "roeu" a sustentação da ponte. Em 1935 a ponte foi substituída por mais um aterro, que dividiu a Baía da Babitonga em duas e causou todo tipo de conseqüência ecológica, como é fácil imaginar.

Depois de fotografar e filmar o trem sobre o tal aterro, fui até Araquari e filmei o mesmo trem passando na estação daquela cidade, que hoje é sede do Corpo de Bombeiros. Segue os vídeos do dia. Enjoy.







Sexta-feira, Agosto 13, 2010

Amendoins de Cantor, apêndice :)

Perguntaram "o que eu ando fumando" para escrever os últimos posts. Digamos que os livros a seguir sejam realmente "fumo para a mente":

a) MENEZES, Paulo Blauth. Matemática Discreta para computação e informática. Editora Sagra-Luzzatto.

Este livro é de uma série que foi produzida pela UFRGS como material didático. Eu comprei a série toda, mas honestamente acho que apenas o livro citado, de número 16, é interessante o suficiente fora do contexto "estudar para passar de ano".

Foi a primeira vez em que lamentei não ter me graduado em Ciência da Computação, no sentido que "putz, perdi um assunto interessante".

b) "e": A história de um número.

Este é um livro absurdamente agradável de ler e informativo.

Infelizmente, "sumiu" quando emprestei para algum colega de trabalho do meu emprego anterior. Outro livro excelente, "O Último Verão Europeu", perdi pelo mesmo processo. O suspeito número 1 é, naturalmente, o Bitcho. (Ei, Bitcho, o Aldenor perguntou onde tá o "Linkers & Loaders", melhor devolver hein? Tenho de fazer um post no #VdB a respeito.)

c) E é claro um monte de artigos da Wikipedia.