Hoje eu estava conversando com minha esposa Ana sobre o movimento da praia, que neste ano parece estar muito melhor do que os anos anteriores. Mas ainda falta algo para chegar no movimento absurdo que testemunhei na segunda metade dos anos 90, com ápice em 2000. Talvez esta praia aqui tenha caído fora de moda, mas ainda sou mais adepto da minha própria teoria: de que as pessoas ainda não têm tanto dinheiro sobrando quanto tiveram em 2000.
E desta constatação completamente empírica e com grandes chances de estar errada, fiz uma retrospectiva mental 1997-2007. Na minha vida particular, 1997 foi um ápice (embora eu não soubesse disso na época) e 2007 tem tudo para ser outro ano notável, pelo número de mudanças (grandes realizações profissionais, bebê a caminho, 3.3 litros a menos na cilindrada do carro, e possuir o próprio teto).
O mundo era bastante diferente em 1997, e francamente mais amigável à classe média emergente. Bem-vindo a um mundo onde o barril de petróleo custa US$ 10 e o Bill Clinton está no poder.
Gasolina a 0.75 o litro. Uma picape S-10 V6 custava 26.000 reais. Aplicações financeiras de renda fixa pagavam 3% ao mês. No espaço de um ano, uma linha telefônica que custava 5.000 reais estava valendo 500, e todo mundo já sabia que "bolsas de telefones" eram um negócio fadado a desaparecer. Foi um privilégio ter vivido naquela época estando num bom emprego e ainda morando com os pais.
Naturalmente, tais facilidades eram fruto de severas distorções. Um bom terreno valia metade de uma S-10. Imóveis em geral eram vendidos a preço de banana. Quem deu o azar de estar endividado nesta mesma época podia pagar taxas de até 14% ao mês. Ou pelo menos fingir pagar -- em 1997 correu um gigantesco abalo de crédito que quebrou inúmeros agiotas e factorings. Tal abalo não pegou os bancos oficiais, e portanto não teve tantas manchetes quanto merecia, pois os devedores tiveram tempo de trocar os credores formais pelos informais antes de quebrar. Ainda assim, alguns bancos como o Nacional realmente quebraram.
Ser pobre não era uma boa idéia em 1997. O salário mínimo era de 120 reais. Os programas de ajuda social, que hoje todo mundo aceita como coisa normal, simplesmente não existiam. Quando o botijão de gás passou de 10 reais para 30 reais em questão de um ano por conta do dólar flutuante, muita gente passou a usar lenha para cozinhar.
Em 1999, uma S-10 V6 já custava 37.000 reais. Um pouco cara, mas ainda acessível. O dólar flutuante já mostrava as garras, mas algumas coisas ainda estavam baratas: construir um sobrado ainda era possível por 50.000 reais no final de 2001.
Agora estamos em 2007. Bush no poder, barril de petróleo a US$ 100. Um litro de gasolina custa 2.70; e o litro de álcool custa praticamente o mesmo, joule por joule. Isto extinguiu as picapes com motores grandes a gasolina. E uma picape diesel nova custa próximo de 100.000 reais. Aqueles 37.000 reais que compravam uma picape em 1999 hoje compram um carro 1.0, é bem verdade que adicionado de alguns opcionais que nem deveriam ser opcionais.
Isso no Brasil, onde os impostos sobre a classe média estão maiores do que nunca. Os mesmos 37.000 reais compram um Mustang V8 nos Estados Unidos. Mas eu nem queria um Mustang, tá? :) Por outro lado, o álcool combustível foi reabilitado em grande estilo, e hoje podemos andar de automóvel queimando combustível 100% renovável.
Os imóveis custam quatro vezes mais em 2007 que 1997, porém as condições de financiamento muitíssimo melhores sobrepujaram este problema, a ponto de hoje a procura por imóveis ser muito maior que antes. Depois de 20 anos, o rendimento de um aluguel é novamente compatível com o rendimento de uma aplicação de renda fixa.
Os EUA balançam com a crise do subprime. No Brasil, nada acontece. Absolutamente nada. Sinal de que os anos 90 realmente ficaram para trás. Crise russa e crise mexicana parecem coisas mais distantes que a queda do Muro de Berlim...
Em 1997, os vôos atrasavam como hoje, e Congonhas estava entupido de gente como Guarulhos está hoje. Algumas coisas não mudam.
Ser pobre em 2007 é menos pior que em 1997. Está quase "na moda" ter origem semelhante ao do presidente. O salário mínimo é de 380 reais, os programas sociais estão em franca expansão. De repente, escassearam as desculpas dos pedintes. Com um pouco de sorte, teremos o programa de renda mínima 100% implementado em 2017.
Os mundos de 1997 e 2007 são, ambos, agradáveis de se viver, embora imponham desafios diferentes. Ambos são anos muito melhores que, por exemplo, 1981, 1991 e 2001.
O ano de 97 foi a grande festa da globalização, um oba-oba alimentado pelo petróleo barato. Foi perfeito para quem tinha um V8 na garagem e uma profissão em demanda. Foi ruim para quem estava "desalinhado". Apesar da insistência do Lula em dividir o Brasil em ricos e pobres, tal divisão era muito mais efetiva em 1997 do que hoje. O Windows NT ia dominar o mundo.
2007 apresentou desafios bem mais interessantes. Os alinhados não estão incrivelmente confortáveis, nem os desalinhados na lama. O petróleo caro finalmente colocou a energia renovável na ordem do dia. O euro ameaça o dólar como moeda global. A Apple vende Macs baratos e compatíveis com PCs. O software livre está na boca do povo. O Brasil está próximo de receber o "investiment grade" das agências de classificação de risco.
Cavalheiros, foi um prazer pilotar com vocês.
Terça-feira, Dezembro 25, 2007
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