Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007

Coisas para se sentir saudade de Recife

Agora que falta apenas 1 semana para ir embora, começa a cair a ficha do que estou deixando para trás, em particular as coisas boas e lições aprendidas. Certamente não vou bater a poeira quando for embora; haverá motivos para voltar de vez em quando -- e é bom que seja assim porque a muié é daqui e obviamente quererá vir.

Em primeiro lugar, a primeira coisa que notei aqui, como o povo tem um "dicionário" mais extenso que o sulista em geral, na língua falada. E quando falo povo, quero dizer povão mesmo, até o tio analfabeto que instalou o ar-condicionado e pediu um "escopro" para quebrar o gesso, coisa que no Sul chamariam de "talhadeira" ou até de "ferrinho". Seixo, calhau. engelhada (roupa propositadamente amassada) e armazém são outros exemplos que nunca ouvi antes senão escrito num livro, mas aqui têm uso comum.

O motivo desse vocabulário extenso me parece óbvio: estão usando o mesmo idioma há 400 anos, enquanto nós descendentes de imigrantes estamos usando há apenas 50 quando muito.

Depois, é muito interessante o cosmopolitismo do pernambucano, certamente outra consequência da secular relação com o porto, com a necessidade de exportar, importar e conviver com culturas diferentes. E Pernambuco já foi vanguarda, já foi um lugar onde fervilharam idéias liberais talvez trazidas pelos holandeses, condição que hoje se atribui mais prontamente aos sítios de imigração européia no Sul/Sudeste. Temos aí uma conexão interessante, um tanto atrapalhada pela distância e pelos anti-liberais no caminho :)

Esse cosmopolitismo se traduz na disponibilidade de produtos e serviços que não são nada fáceis de se encontrar no Sul, e em particular em Joinville. Seja um restaurante japonês ou uma loja de componentes eletrônicos, a qualidade e variedade aqui são muito melhores. A quantidade e qualidade das livrarias também foi uma surpresa positiva. E sempre estão razoavelmente cheias de gente, não é aquela coisa de só ter movimento na época de compra de material escolar.

Outra característica interessante do pernambucano é não ser especulativamente apressado como o sulista. Na verdade o nordestino não é lerdo como se apregoa. Nenhum serviço aqui demora muito mais aqui do que no Sul. Mas o serviço é feito a partir do momento que ele é solicitado. Metade dos meus ex-patrões tacharia isso de preguiça, todos esperavam que nós funcionários antecipássemos necessidades. Talvez seja uma coisa boa em termos macroeconômicos (compare a qualidade de vida nos dois lugares e tire suas conclusões), mas é um "talento" que deveria ser usado apenas para coisas realmente importantes, do contrário tira o prazer de muita coisa na vida. E acaba rotulando muita gente como preguiçosa quando na verdade só não sabe especular.

Outra coisa interessantíssima é que o povo daqui não tem muita paciência quando está esperando por algo. Minha noiva se impacienta muito mais rápido que eu, e já vi muitas vezes gente desistindo de esperar na fila do caixa do supermercado, largando o carrinho cheio de coisas etc. As pessoas daqui têm uma paciência maior consigo mesmas -- não necessariamente com as outras, mesmo em se tratando de paesani.

Ainda sobre modus operandi no trabalho, as pessoas daqui não têm vergonha de pedir ajuda ou recursos, e isso em todos os níveis. É outra diferença cultural importante; em toda a minha vida pregressa fui encorajado a tirar leite de pedra. Nesse mister há exageros de ambos os lados. Como é natural do ser humano enxergar mais facilmente o cisco no olho alheio, vejo com muita desconfiança os políticos daqui sendo avaliados pela população na proporção do dinheiro que conseguem trazer do governo federal. Ou seja, sobra choradeira e falta tentar se virar. Na minha terra o problema é o inverso: temos o melhor IDH do Brasil mas pouquíssimos políticos conseguem relevância nacional.

O povo é em geral bastante "político" e tem sangue mascate. Gosta de oferecer coisas, negociar preço, etc. Se você pedir desconto, isso não soará ofensivo e geralmente funciona. Assim como ele não se envergonha de pedir algo, não se incomoda de ouvir quando é por sua vez solicitado.

Isso foi estranho e até irritante para mim no início. Me sinto enganado quando o preço de etiqueta não é o final, e odeio ser abordado quando estou, por exemplo, num supermercado ou a passeio. Os supermercados aqui estão cheios daqueles "provadores" que oferecem quitutes e recomendam produto B quando você pega produto A na prateleira. Mas para o povo daqui isso é normal. Inferno semelhante enfrentei na primeira visita à Olinda; mais algumas visitas e acabei me acostumando, e aprendendo a dizer "não" com naturalidade, ou "sim" quando o negócio me interessa. Só não vou à Olinda todo fim de semana porque para evitar as tentações de gastar dinheiro.

Agora os fatores climáticos/geográficos. O tempo aqui é extremamente previsível; você pode agendar um passeio à determinada praia e ter 100% de certeza de tempo bom. O vento sempre sopra na mesma direção, bom para certos esportes náuticos. Isso me faz lembrar de quantas vezes desisti de andar de Laser no Sul porque estava ameaçando nublar. E, diferente do Nordeste, quando nubla, chove. E quando chove, o vento pára e você tem de remar com a bolina :)

Estranhamente, não estranhei muito o clima quente, o ar salgado e a quantidade de rios e mangues que cercam a cidade. Isso tudo é exatamente igual em Joinville e imediações. E ao contrário da propaganda, o automóvel não vai se desmanchar em 1 ano por causa da proximidade com o mar; já vai longe o tempo dos Fuscas e Brasílias com chapas metálicas com baixa resistência à corrosão.

Finalmente, as pessoas em geral têm o sulista em alta conta e fui muito bem tratado em todo lugar que fui, em particular depois de me "identificar". Enfim, sempre é reconfortante poder usar o mesmo idioma ainda que a 3000km de casa.

Existe também aí o fator "também somos gente e vamos provar isso": as pessoas são preventivamente ressentidas dos rótulos que o Brasil abaixo do Trópico atribui aos nordestinos. Tais rótulos existem de parte a parte: a idéia geral que o pernambucano tem do Sul é de um lugar nada cosmopolita, cheio de nazistas morando no meio do mato, criando porcos ou frangos. Ninguém imagina, por exemplo, que exista um parque industrial forte no Sul, porque indústria é associada a São Paulo. Nada como os estereótipos que a TV Globo produz.

Enfim, vai ser bom voltar para cá como turista.

Terça-feira, Fevereiro 06, 2007

Como dirigir em Recife

Como disse um amigo meu, cada cidade tem um "código de trânsito" peculiar, resultado do seu background cultural. Num lugar os pedestres esperam os carros, na cidade ao lado os carros é quem têm de parar.

Os "estrangeiros" costumam reclamar do trânsito de Recife, mas descobri que tais críticas são infundadas. O que ocorre na verdade é que a cidade tem uma tradição náutica muito forte, a ponto de as regras de navegação aquática valerem também em terra.

Para quem não sabe, Olinda era a capital de Pernambuco mas perdeu o posto para Recife devido à importância econômica do porto.

Só não compreende o trânsito da Capital da Galáxia quem é um estúpido absolutista cultural, e vou usar gravuras de um livro sobre navegação à vela ("Do Optimist ao Barco de Oceano") para provar isso.

Por exemplo, você está numa pista, e alguém lhe corta a frente para desviar de um obstáculo parado. Saiba que isto é perfeitamente normal pelas leis da náutica. Num veleiro você gritaria "Água" para pedir passagem, mas em terra naturalmente você não seria ouvido, então BUZINE.

Falando em buzina, reclama-se que os motoristas buzinam muito em Recife. Mas quando você dirige noutro lugar, sente falta desse auxílio sonoro. As regras náuticas mandam buzinar ao ultrapassar, ao virar, ao parar, ao começar a movimentar-se, e ao cruzar com outro veículo no mar. Considerando o número de vezes que estes eventos acontecem numa auto-pista, é natural que as buzinas trabalhem o tempo todo, não é?

Barcos não têm setas (pisca-piscas), e sim "luzes de alcançado", para alertar outros barcos acerca de sua posição.

Se você ver um carro com o pisca-alerta ligado e parado em fila dupla ou tripla, e começar a reclamar -- você está errado! Isso se chama atracar a contrabordo (perfeitamente permitido) com as luzes de alcançado corretamente ligadas.

Esta regra devia ser adotada no Brasil inteiro; nunca mais ia faltar lugar pra estacionar. (Veja que os portos e marinas são pouquíssimos, mas sempre há espaço para um barco a mais.)

Falando em pisca-alerta, não reclame se os carros não ligam a seta quando vão fazer curvas; você já viu algum barco com seta? Eu aposto que não.

Ao chegar perto de um ponto de inflexão (um cruzamento para dobrar à esquerda, uma curva etc.) sempre quem vem por fora tem a preferência e pode cortar sua frente. Queira respeitar as leis do mar e dê espaço.

Os semáforos têm o mesmo significado que balizas no mar: verde quer dizer "permitido virar à esquerda", vermelho quer dizer "permitido virar à direita".

Assim como os corredores de entrada/saída de porto dos mapas da Marinha, as faixas tracejadas pintadas na rua são feitas para andar exatamente no meio delas, não entre elas. Ainda assim, não é necessário ser muito preciso. Segundo um taxista de Recife, "se todo mundo andar na faixa, isto desperdiça espaço da pista". Descartes deve ter virado no túmulo.

Da mesma forma, é proibido passar entre dois barcos, digo, entre dois carros andando em faixas não adjacentes. Se eles te prensarem a culpa é sua.

Um barco deve andar a no máximo a 5 milhas por hora em canais interiores. Isso significa que você deve andar a 5 milhas por hora nas rodovias federais. Por outro lado a velocidade em mar aberto é ilimitada, portanto você pode andar tão rápido quanto queira em lugares passíveis de inundação (ou seja, toda a área entre a praia e a BR-101)

Dar voltas doidas num espaço aberto qualquer (uma rua larga ou um cruzamento) é (por incrível que pareça ao caipira que nunca viu uma praia) uma forma de evitar multas. Segundo o regulamento de regatas a vela, fazer uma volta de 720 graus isenta o competidor de punição. Faça o mesmo caso tenha cometido alguma infração de trânsito e houver um guarda por perto, assim ele não te passa a caneta.

No Brasil, a carteira de arrais ou mestre só precisa ser renovada a cada 10 anos, e o documento de um barco só tem de ser renovado quando ele muda de dono. Isso faz com que o custo de possuir um automóvel em Recife seja muito baixo (talvez por isso haja tantos carros e o trânsito fique lento).

Se por acaso você for parado na blitz e não estiver com os documentos (porque esqueceu ou porque eles estão muito velhos, afinal só renovam-se a cada 10 anos), basta provar que mora no Brasil apresentando uma nota de 20 reais.

Seguindo estas regras, você poderá dirigir corretamente e com segurança em Recife, sem stress, sentindo-se como se estivesse com Bob Esponja na Fenda de Bikini.