Vejo muita gente se perguntado porque tanta gente se submete a religiões no estilo pentescostal. Pra quem olha de fora, parece difícil entender, pagar dízimo e ainda ter de obedecer inúmeras regrinhas sobre cada aspecto da vida pessoal (que diga-se de passagem variam de um templo para outro...)
Embora já faça algum tempo, eu fui atrás da resposta a essa pergunta... e quase fui "conquistado". É como recrutamento de vendedores da Amway: é um campo de distorção de realidade que convence qualquer um. Se você der a sorte de não ter a grana na hora para a inscrição, e dormir uma noite em cima do assunto, as dúvidas já começam a brotar e você provavelmente não entra mais.
Mas eu acabei compreendendo os porquês da popularidade das pentecostais. É que eles fornecem uma "experiência total" aos fiéis, que não se restringe aos cultos, dízimos e regrinhas chatas. O egresso não ganha apenas uma religião, ele ganha uma *comunidade*. Dentro dessa comunidade, há tudo que um ser humano típico precisa para viver feliz.
Quem disse que crente não se diverte? Eles se divertem, e muito. Vivem organizando viagens, encontros, idas a parques (por algum motivo, parques aquáticos são muito apreciados pelos pentecostais, isso eu ainda não entendi por quê). Quem se interessa por música, tem oportunidade de desenvolver o talento. A igreja fornece instrumentos, estrutura e público.
Dentro do templo, são todos iguais, pelo menos no aspecto financeiro. Se alguém precisa de ajuda, é ajudado. Se um cara pobre namora uma moça mais rica, ninguém implica. Tudo que importa é estar na mesma fé... É claro que a "pirâmide social" vaza para dentro da igreja, mas o critério de estratificação é outro: ligação com atividades da igreja (com filhos de pastores, músicos e missionários no topo da cadeia alimentar).
Missionários costumam ser mal-vistos por nós de fora. Mas para quem se engaja em missão, é na verdade uma incrível forma de se aculturar e conhecer o país e o mundo quase de graça. A classe média "normal" manda os filhos para o intercâmbio a duras penas, os crentes incentivam os filhos a serem missionários bancados pela igreja.
A verdade é que o crente desforra-se do seu dízimo. Ele paga muito, mas, na média, recebe tanto ou mais em troca. Não é muito diferente do que ser sócio de um clube. A maioria dos não-crentes falha em perceber isto.
O culto é extremamente longo, em torno de três horas. Mas quem disse que os fiéis têm de ficar alinhados como num desfile militar? Durante o culto, alternam-se no púlpito uns dez ou quinze pastores, e mais alguns fiéis normais dando "testemunhos", cada um dando uma mensagem diferente. (Na verdade, apenas um ou dois são "pastores consagrados", ou seja, profissionais, o resto é amador). Mais uma oportunidade a qualquer um que deseje treinar falar ao público.
Apenas um subconjunto dos fiéis está interessado na mensagem de cada pastor em particular. O resto fica lendo a Bíblia, falando em línguas ou mesmo conversando. Para facilitar a conversa, pelo menos na igreja que eu fui, as mulheres e os homens sentam-se separados (por convenção). Banheiros estão estrategicamente colocados nos corredores externos, de modo que pode-se ir à "casinha" sem ser notado e sem demorar.
Apenas no início e no final do culto, há uma mensagem que absolutamente todos ouvem juntos, em silêncio, como um "sinal de sincronismo". Na verdade o "início" do culto é difuso, tem gente chegando a todo momento. E no final a debandada também é difusa.
O excesso de regras que a igreja "sugere" para a vida pessoal dos fiéis pode ou não ser um problema. Em minha opinião acaba sendo um problema maior para as pessoas muito influenciáveis, pois as torna meio "autômatas". Por incrível que pareça, os "rebelados", que batem boca, discutem a validade das tais regrinhas etc. são respeitados dentro da igreja, pois acabam sendo os mais interessados em teologia.
Eu apreciei muitos dos aspectos da igreja que visitei. Então por que eu não me engagei? Porque penso que não entraríamos em acordo em alguns pontos.
Primeiro, a excessiva ênfase da igreja no "rebanho", e a minha alergia em ficar rodeado de muita gente o tempo todo. É uma deficiência minha, mas moramos num país livre inclusive para sermos deficientes no que quisermos :)
O próximo problema (e daqui pra frente estou especulando, não afirmando peremptoriamente) é o "efeito brega". Os não-crentes percebem os crentes como "bregas". Por que?
Penso que, se um grupo precisa atuar de forma coesa com objetivos em comum, os objetivos têm de ser "denominadores comuns", que sejam do interesse de todo mundo. Uma das forças do pentecostalismo é, como vimos, criar homogeneidade. Mas isso exclui objetivos "exóticos".
A conseqüência disto é o que a Universal mostra (de forma patológica) nos seus programas de TV: os vencedores têm 3 apartamentos, 4 carros importados, 5 celulares, filhos usando roupa de marca e estudando em colégio de bacana. *Nunca* vi um fiel dizer que conquistou uma bibioteca com 5000 volumes, ou uma maquete de ferreomodelismo, ou um automóvel antigo. Mesmo as profissões das testemunhas são sempre coisas "normaizinhas".
A pergunta então é a seguinte: será que a comunidade da igreja lida bem com aqueles que têm interesses fora do padrão? (Eu não sou pentecostal, então não sei a resposta.) Mas reconheço desde já que a maioria das pessoas têm problemas e precisam de orientação mesmo para os objetivos mais "bregas", então este problema não afeta muito o apelo do modus operandi pentecostal junto à grande massa.
Uma pedra angular do cristianismo é a afirmação que o ser humano é inerentemente pecador e falho. Vamos denominar isto de "crença no homem fraco". Possibilidades como o "novo homem" de Nietzsche não são nem consideradas.
Mas o pentecostalismo dá uma importância muito maior ao "homem fraco" que as religiões tradicionais. Daí a necessidade de (tentar) regular cada aspecto da vida pessoal do fiel. Outra conseqüência do "homem fraco" é a ênfase na conversão de novos fiéis e, em particular, no retorno dos fiéis "desgarrados". Acho que mais de 50% dos hinos evangélicos abordam unicamente estes eventos pontuais.
Por algum motivo, essa fascinação com a "conexão" do fiel à comunidade me lembra aquelas propagandas de provedor onde colocavam os sons de um modem analógico conectando-se. A Internet só é utilizável depois que tais sons silenciam, mas por algum motivo é o ruído inicial que vira sinônimo de acesso.
Por ora é isso aí. Comentário são bem-vindos, como sempre. Flames, mais ainda :)
Quarta-feira, Janeiro 23, 2008
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3 comentários:
Agora é só esperar um post clueless do Rudá, retrucando tudo que tu falou :)
Que a vantagem da religião é te botar instantaneamente em uma comunidade e te livrar do mal-do-mundo-moderno é uma intuição que eu já tinha tido mesmo de fora.
O problema é a companhia.
Legal a comparação da vida social e clube dos crentes, realmente é uma boa analogia e uma boa argumentação da participação do crente tanto como na vida social da comunidade quanto ao dízimo. Pensei que tu ias discorrer mais sobre o aspecto jocoso/brega do crente, mas a associação foi mais simples, mas enfim, se não ia acabar sendo um post troll do Rudá... Em geral eu acredito que a religião é algo que está "no cérebro", é uma necessidade e/ou moldada de formação, diferente da fé, que é algo... bom ou tu tens ou não tens, mas não foi o objetivo do teu post. Eu curti moooito.
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