Sexta-feira, Abril 11, 2008

Safadeza bioenergética

Nos últimos dias, tem aparecido uma enxurrada de reportagens colocando a culpa da inflação e do encarecimento dos alimentos nos biocombustíveis. Sinto cheiro de safadeza no ar.

Pra variar, o Lula falou bobagem quando inquirido a respeito ("os alimentos estão caros porque os pobres agora estão comendo e há muita demanda"). Será que antes os pobres comiam pedras? Ou será que disse isso pra corroborar o abobado do Hugo Chavez, que também debita o desabastecimento venezuelano à mesa farta dos pobres? Será que os pobres venezuelanos comiam 600 calorias e agora comem 5000? 

Tanto o Lula tem convicção que se passa fome no mundo livre, que ele tentou censurar o IBGE, quando em 2003 este órgão falou que menos de 2% dos brasileiros estavam realmente "na zona de insegurança alimentar".

Mas, em seguida o Lula falou algo muito acertado: não venham culpar a produção de biocombustíveis pela inflação dos alimentos. 

De fato os alimentos estão ficando caros, mas isso tem outras razões:

1) O petróleo está muito caro. Esta é a mais importante razão. Não é só por causa do diesel dos tratores. Fabricar adubo demanda MUITA energia, tanto assim que nitrato de amônia também serve como explosivo.

Ou seja, o petróleo é a principal causa do aumento dos alimentos, e justamente os biocombustíveis, que concorrem com o petróleo e têm potencial de segurá-lo num preço suportável, é que estão levando a culpa. Cheira a safadeza, no mínimo uma inversão de valores. 

Tanto que o primeiro a se manifestar contra biocombustíveis foi quem? O Hugo Chavez. Porque a Venezuela depende das vendas de petróleo, e se aparecer uma alternativa, ela retorna à sua insignificância. Outro que falou mal dos biofuels foi o Fidel Castro -- porque Cuba depende financeiramente da Venezuela. 

Eu cresci ouvindo histórias de como as Sete Irmãs da indústria petrolífera estadunidense davam um jeito de sabotar projetos de energia alternativa. Que vergonha a sabotagem agora partir de alegados socialistas...

Ok, vamos ser honestos com eles. É natural que ambos falem mal de qualquer alternativa séria ao petróleo; eles têm de vender seu peixe. Se a energia eólica mostrar-se uma alternativa boa, eles vão condená-la porque ela mata passarinhos e borboletas. Mas isso é tão digno de confiança quanto a conversa de um vendedor de carros usados.

Dois dos alimentos que mais andaram subindo foram trigo e feijão. Que eu saiba, nenhum dos dois pode ser usado para fazer biocombustível, e nem mesmo competem pelas áreas de terra que poderiam ser usadas para plantar cana-de-açúcar.

2) Os alimentos têm estado num preço historicamente baixo, há muitos anos. Tanto assim que o setor agrícola tem dependido de subsídios para sobreviver, no mundo todo. 

Agora que o pessoal do campo conseguiu tirar o pé da lama, a galera começa a reclamar (de barriga cheia)...

Volto ao exemplo do feijão. Eu sei o trabalho que dá cultivá-lo e prepará-lo para consumo, e sempre me perguntei porque era tão barato. Agora está num preço que remunera o trabalho. Mas todo mundo reclama que "está caro!". Reclamar é fácil. As pessoas, mesmo as mais pobres, gastam $500 num celular chique, construído aos bilhões de forma automatizada. Mas não podem pagar mais que $3 por um kg de feijão que dá pra fazer quase um metro cúbico de feijoada...

Até algo aparentemente não relacionado pode estar ajudando: o Bolsa-Família. Muita gente desistiu de trabalhar como agricultor em lugares pouco produtivos como sertão nordestino, porque receberia menos que o BF. (Feijão é uma cultura comum no Nordeste.) Nesse caso, alguém poderia dizer que o BF causa inflação... 

Sejamos francos, se o sujeito não consegue ganhar 80 reais por mês trabalhando dia após dia numa lavoura,  é melhor que receba o BF e procure outra profissão. Quem é sádico o suficiente para dizer que BF "causa falta de mão-de-obra agrícola" deveria ser obrigado a plantar feijão recebendo $80/mês.




1 comentários:

leoboiko disse...

Eu, pessoalmente, estou torcendo pra que o petróleo fique cada vez mais caro e que os combustíveis alternativos não dêem conta de substituí-lo no mesmo nível que usamos hoje. Quem sabe assim a gente pára de torrar energia com inutilidades como andar de carro pra lá e pra cá ou agricultura orgânica.

Postar um comentário