Devido à recente paternidade, tomei emprestados mais dois livros sobre educação de criancas: "Ouse Disciplinar" de James Dobson, e "Educando Meninos" do mesmo autor.
Os livros são excelentes, se você souber filtrar o ranço direita-cristã-evangélica que os permeia. Eu diria mesmo que o autor faria melhor em lançar uma versão "agnóstica", atingiria um público maior. Como evangélico, sei melhor do que ninguém que existe uma certa "alergia" a conteúdos com verniz cristão, e para ser honesto eu mesmo prefiro que textos sobre assunto X não tenham verniz Y.
A ênfase dos livros é o "tough love" que é essencialmente a última moda da educação. Mas ao contrário do "Quem Ama, Educa", os livros tratam os pais/maridos como componentes importantes do casamento e da educação dos filhos, "as they are", e não como imbecis-xucros-a-serem-domados como acha o Içami Tiba.
Nisso há obviamente um raciocínio circular, já que são livros voltados para maridos/pais, e um marido/pai que se dá ao trabalho de ler um livro desse, é muito provavelmente um bom marido/pai. É o "Efeito Mateus" em ação, onde quem tem já possui um nível X de esclarecimento consegue adquirir mais, e quem não tem, continua sem.
Troquei hoje uma idéia com outro amigo sobre uma das idéias (controversas) defendidas pelo Educando Meninos, que é a mãe não trabalhar fora, dedicar-se à educação dos filhos.
Eu já deixei claro neste blog que, pessoalmente, na minha visão de mundo e situação, prefiro que minha esposa cuide da casa do que trabalhe fora pelo salário mínimo. Simplesmente porque é economicamente mais vantajoso para nós dois. Afinal de contas, num casamento com comunhão parcial, legalmente cada membro do casal é "dono" de 50% dos rendimentos totais. Cada um desempenha o papel que sabe fazer melhor, e todo mundo fica feliz.
Agora, será que esta configuração familiar é realmente aconselhável, a priori e para todo mundo? Mais direto ao ponto, se você tivesse uma filha, educaria-a para ser uma dona de casa? Eu acho que não. Porque, apesar das provisões legais de divisão de bens, pensão e etc., a igualdade de condições de uma esposa sem rendimentos é uma ficção. Só funciona quando existe honestidade de todas as partes.
E honestidade de todas as partes envolvidas -- eis a exceção...
Veja a seguinte situação, que está acontecendo com uma família aparentada minha. O marido arruma amantes debaixo do nariz da esposa, aparentemente "pedindo" para ser mandado embora (a casa é dela). Eles têm dois filhos pequenos e ela não trabalha, nem nunca trabalhou, nem tem uma profissão.
Naturalmente, ela agüenta tudo calada, porque se mandar o marido embora, certamente ele vai usar esse pretexto para sumir no mundo, ou pagar uma pensão microscópica. E aí, faz o que? Se fosse há um século atrás, era mais fácil: o clã familiar expulsaria o safado e assumiria o sustento da mulher e dos filhos. Minha família já foi assim um dia. Note o pretérito perfeito.
Hoje em dia, em particular na classe média, cada um considera "família" apenas família nuclear: pai, mãe e filhos pequenos. O resto é gente conhecida que encontramos em festas de casamentos e em velórios. A educação de um filho é um custo potencialmente infinito, e cada um cuida estritamente do seu, pois já é fardo suficiente.
Uma possível solução seria o Estado pagar um salário para a mãe que cuida dos filhos. Existem projetos de lei nessa direção, não só para donas de casa, mas também para inúmeras outras pessoas que fazem trabalhos essenciais porém não remunerados, como cuidar de familiares doentes. Considerando o número de famílias monoparentais do Brasil, o Bolsa-Família é um tipo de compensação nesta direção.
Agora, não quero nem imaginar o potencial de abuso em cima de um mecanismo assim...
Segunda-feira, Agosto 11, 2008
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5 comentários:
Pelo título do artigo, achei que fosse falar sobre educação, de como tu pretendes educar o teu filho. No meio o artigo passou a falar sobre "formas de casamento", depois passou a ser uma crítica ao padrão familiar de hoje e em seguida falou sobre possível projeto de governo (bolsa mãe que leva a família). Que tal seguir uma linha por artigo?
Rudá: vide http://www.epx.com.br/personal_blog/2008/05/nunca-sero.html
Eu ainda não tenho filhos, mas como eles eventualmente virão, eu e minha esposa temos conversado bastante sobre esse assunto.
Eu acho que o ideal é a mulher (mãe) não trabalhar pelo menos durante os 2-3 primeiros anos de vida da criança e no resto, trabalhar 1/2 período.
O problema é que ficar 2 ou 3 anos sem trabalhar as vezes é jogar a carreira no buraco e nem toda profissão oferece a opção de trabalho em 1/2 período (felizmente, minha esposa que é professora não deve ter grandes problemas com isso).
Bom, fique com o seu blog.
Antes de nada, um aparte: cadê o novo Rudá? O velho Rudá parece estar com força total.
Apesar de parecer machismo -- talvez seja, mesmo, o que não quer dizer que está errado -- eu visualizo minha mulher em casa cuidando dos filhos. Porém, também conheço famílias onde este sistema não dá certo, pelas razões já apresentadas no artigo.
Aliás, mesmo que a mulher tivesse uma carreira anterior ao casamento -- seu exemplo era de alguém que nunca havia trabalhado -- depois de alguns anos de inatividade, não é nada fácil conseguir voltar. Os dois ou três anos do exemplo do Ademar fazem sentido e até acho que ralando um pouco dá para voltar.
Mas imaginem dez anos. Ou 20. Acho que fica inviável.
Minha sogra sofre deste problema. Ela fez faculdade e trabalhou por muitos anos, até que deixou para ficar em casa. Hoje, a última das quatro filhas se prepara para sair e ela está absolutamente desesperada. Ela não tem mais o que fazer. E é absolutamente dependente do meu sogro. Ela não sabe ir ao banco sozinha, não dirige... Não quero isso para minha esposa.
Minha mulher sofre com o dilema ela mesma. Ela quer ficar em casa, mas ao mesmo tempo quer ter uma carreira. Claro que as duas coisas são conflitantes e uma delas vai perder. É uma pena ela ter de tomar esta decisão.
E para as feministas de plantão: sim, eu posso ter de tomar a mesma decisão em teoria. Mas no meu caso, já decidi pela carreira.
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