Quarta-feira, Abril 30, 2008

Bode expiatório para a inflação

Um outro aspecto nefasto da alta de preços dos alimentos e do petróleo, é que isto está servindo de desculpa para pressões inflacionárias que na verdade têm outra origem.

Quando o Lula falou que a inflação causada pela alta dos alientos é uma "inflação boa", ele tentou estabelecer a diferença entre inflação de custos e inflação por expansão da base monetária. O presidente quis dizer que a inflação brasileira é, neste momento, uma inflação de custos, que não é "boa", mas também não é má.

Os preços das coisas no mercado não guardam relação linear com os custos, mas guardam uma certa correlação. Por exemplo, se os carros novos dobram de preço, os carros usados não vão dobrar imediatamente, mas é certo que tendem a valorizar-se. Graças a isso, vendi meu automóvel em 2007 praticamente pelo mesmo preço que paguei em 1999! É claro que gastei mais um tanto num reles 1.0 novo :(

A inflação de custos não é tão preocupante pois "tudo que sobe, desce". O problema é a inflação por inchaço da base monetária -- ou seja, quando o governo imprime dinheiro para pagar suas despesas correntes. O governo brasileiro não faz mais isso. A essência do Plano Real foi essa: emprestar dinheiro ao invés de imprimí-lo, o que inchou incrivelmente a dívida interna. Infelizmente, FHC foi leniente nas reformas que diminuiriam a despesa do governo.

Agora, o governo argentino cai noutra categoria. A inflação real por lá está em 30% ao ano, mas o governo maquia os índices. A última trapalhada foi limitar as exportações de alimentos, na tentativa de baixar a inflação.

Não é crível que uma inflação de 30% ao ano seja apenas uma inflação de custo. Certamente a Argentina está emitindo dinheiro adoidadamente e agora quer espetar a conta nos produtores rurais, sempre com aquela mesma conversa mole de que são "especuladores", "impatriotas", aquelas mesmas pataquadas que ouvíamos por aqui no desabastecimento causado pelo Plano Cruzado.

Estendendo o raciocínio a outros países, eu aposto que muitos países europeus estão com o mesmo problema, e agora acharam o bode expiatório perfeito: os biocombustíveis. Ou seja, o Brasil.

Segunda-feira, Abril 21, 2008

Humor inteligente

Sinto falta do humor do Chico Anysio. Sei que os humoristas perderam muito de sua inspiração quando acabou o regime militar, mas tanto o "Viva o Gordo" quanto o programa do Chico Anysio (que mudava de nome todo ano, então é mais fácil referir-se ao humorista) faziam excelente figura até os anos 90.

Em particular, eu preferia o Chico por ser um programa menos "berrado", um humor mais sutil, talvez sem graça para quem não gostasse de pensar. E o "profeta" aparecia no final de todo programa. Para matar a saudade, achei uns vídeos no Youtube: este, este e este.

O "Zorra Total" seria o descendente direto do programa do Chico. Infelizmente, foi-se o conteúdo e ficou só o berro :)

Domingo, Abril 20, 2008

A escola faz o aluno, ou o aluno faz a escola?

Como não podia deixar de ser, as notas do Enem foram motivo de acaloradas discussões no #d00dz. Todo mundo com filho pequeno, a preocupação com educação está na ordem do dia.

Como já suspeitávamos e o Enem apenas confirmou, existe um abismo entre escolas públicas e particulares. Aí a turma se divide em duas facções bem separadas:

* os que acham que educação mesmo se dá em casa, e o aluno faz a escola (eu estou neste bando);

* os classe média 1.0 que investem em escola caríssima a partir de 1 ano de idade para "preparar o filho pro mercado", pois a escola faz o aluno.

Aqui onde moro, só tem escola pública (e a única escola de 2o grau se ferrou no ENEM), e me vi em palpos de aranha para convencer minha esposa da minha posição a respeito do assunto. O bichinho classe média 1.0 mordeu ela de jeito, "onde já se viu meu filho se misturando com filho de pobre". Mas consegui fazer valer minha posição. Por ora.

O fato é que também temo pela educação do Felix. Pagar pra ver é bem mais difícil que falar suas opiniões de forma peremptória no #d00dz. Mas ainda estou disposto a pagar pra ver, um pouco menos corajosamente que com os filhos dos outros, mas estou.

Depois de muito discutirmos, chegamos à seguinte conclusão: o aluno faz a escola. Os alunos de escolas particulares saem-se melhor porque existe uma CORRELAÇÃO entre o pai educar bem o filho em casa e sacrificar-se para pagar um colégio particular a ele. Não existe relação de causalidade, esse pai criaria bem o filho com home schooling. Existe correlação de atitudes.

Da mesma forma, existe o pai negligente que joga o filho na escola pública porque é obrigado por lei, mas não faz mais nada por ele. Sem falar nas inúmeras famílias monoparentais onde a mãe trabalha fora. (Um terço das pessoas no Brasil é registrada sem o pai na certidão de nascimento!).

Também concluímos que, em tese, a imposição de escolas públicas melhoraria a situação geral da educação. Não porque escola pública seja boa. Ela é pior que a particular, pelo simples fato de estar vinculado ao governo. E esta solução para mim não serve, porque não concordo em nenhuma restrição à liberdade que pretensamente promova a igualdade.

PORÉM, porém, o ingresso de pessoas esclarecidas forçaria uma melhoria de qualidade que aproveitaria a todos, inclusive às crianças com pais despreparados. É forçoso admitir isso.

O mesmo acontece com a saúde pública. Mas as pessoas escolhem não exigir o serviço público eficiente por covardia (e eu me incluo humildemente, no tocante à saúde: o Felix nasceu num hospital particular onde até plano de saúde é malvisto).

Vamos ver se me redimo quando o Felix for à escola...

E finalmente, vejo uma reportagem hoje que parece confirmar nossas conclusões:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u391778.shtml

"Os municípios cujos alunos conseguiram o melhor desempenho no Enem (Exame Nacional de Ensino Médio) são também aqueles que apresentam menor distância entre a rede pública e a particular". É claro que isso aconteceu no Rio Grande do Sul :)

Biocombustíveis e porcos

Lembrei agora de um livro, "O início e o fim", uma coleção de ensaios de Isaac Asimov sobre o mundo, o universo e além. Um dos ensaios aborda a problemática de produção de alimentos, numa época pré-revolução verde.

A celeuma da época era o uso de alimentos "para gente" na criação de animais. Ao contrário do biocombustível onde pelo menos 100% do conteúdo energético é aplicado na atividade-fim, a criação de animais é extremamente ineficiente: menos de 10% da energia acabam virando alimento final. É óbvio: o bicho tem de crescer e viver, além de produzir carne...

Boa parte da energia desperdiçada no processo de criação de animais materializa-se em fezes malcheirosas, que poluem à beça. (Todo material biológico que polui, o faz justamente porque tem energia armazenada, e consome oxigênio para decair.)

Aliás, esta é uma das explicações "alternativas" para o fato dos judeus não comerem porco -- porque ele compete com o ser humano pelo mesmo tipo de alimento, e isso poderia causar conflitos sociais, onde uns comeriam porco e outros nem mesmo milho. Lembrei dessa vendo os bois no pasto aqui na frente de casa. Bois, cupins e fogueiras são algumas das poucas coisas que podem alimentar-se diretamente da celulose. Nenhum ser humano vive de comer capim, portanto o boi não compete com ele pela comida. Embora os bois aqui adorem quando lhes atiro uma fruta :)

Se os biocombustíveis tornarem-se um problema para a produção de alimentos, é porque o uso de alimentos na alimentação animal já tem sido um problema mais grave há muito mais tempo. O biocombustível ao menos serve para mover o trator que anda na lavoura. Frangos e porcos não.

Sábado, Abril 19, 2008

Política indigenista

Você concorda com a política indigenista brasileira? Eu não. Acho que essa política de demarcar reservas indígenas, quilombolas etc. tem inúmeros defeitos, e o mais grave é acabar isolando os próprios beneficiários.

A política de reservas de pedaços de terra é viciada na origem. Pessoas vivendo confortavelmente na cidade tiveram aquele vago sentimento de culpa a respeito dos menos favorecidos, aquela coisa beatnik dos anos 60. Aí, em relação aos índios, os "primeiros donos desta terra", acharam por bem criar reservas indígenas, conceito depois estendido a outros grupos étnico-sociais.

Em primeiro lugar, considero um erro esse conceito de vincular o homem à sua terra. Lembro do Jô Soares falando em seu programa de entrevistas que o índio tem relação especial com a área onde mora. Será que isso é prerrogativa do índio? Será que não é do gênero humano como um todo? Qual é a pessoa que não quer viver perto de onde nasceu? Até o Josef Mengele cogitou voltar à Alemanha (ainda que direto para o xadrez) antes de morrer. Até não-humanos à casa tornam.

Assim sendo, por que apenas o índio teria o direito de morar no mesmo spot que os antepassados, inclusive sendo sustentado pelo governo quando não consegue manter-se sozinho?

Outro conceito furado é a do "primeiro dono da terra". As tribos indígenas guerreavam freqüentemente entre si. Aqui mesmo em Joinville, há evidências arqueológicas de inúmeras "eras" de indígenas. Cada uma delas foi dona da terra em algum momento, e foi desalojada de alguma forma, provavelmente à força. O ser humano é assim mesmo. O índio é humano, faz guerra também, não é nem melhor nem pior que os demais humanos nesse quesito particular. A única diferença é que o último invasor, o europeu, tinha a pólvora.

Atribuir ao snapshot de tribos indígenas atual o título de "primeiros donos da terra" é criacionismo ideológico, e a aplicação equivocada de um princípio em si mesmo equivocado: a justiça imprescritível (fiat justitia pereat mundus). Muita, muita gente teve seus direitos violados por aí muito mais recentemente, e não teve justiça.

Já que a moda é reclamar coisas para sua etnia, permito-me citar as torturas e expropriações que muitos descendentes de alemães sofreram aqui durante a II Guerra Mundial, às vezes pelo simples motivo de não saber falar bem o português. Talvez haja gente pobre por aí por conta disso. E aí, vai ficar por isso mesmo? Vai, porque para pessoas "normais" vale o princípio da prescrição.

Quem conhece a justiça dos EUA sabe que é uma bagunça. Os juízes são escolhidos por eleição, os processos ficam guardados nos escritórios dos advogados, o juiz decide o que quer baseado muito mais no costume que na lei. Nós que estamos acostumados com o direito romano, ficamos de cabelo em pé.

Mas tem uma princípio da justiça estadunidense que eu acho excelente: o utilitarismo. Basicamente, esse princípio diz que a justiça deve objetivar a felicidade do maior número possível de pessoas, pelo tempo mais longo possível.

Falta utilitarismo em muitas políticas aqui no Brasil. Um dos casos é a demarcação de reservas para índios, pois traz a felicidade para pouca gente em detrimento do resto. É uma política que não tem escalabilidade, pois se criarmos reservas para todo tipo de etnia e comunidade no Brasil, vai faltar território.

Mas os índios merecem ser felizes, não? É claro que sim. Assim como todo grupo social que é de alguma forma marginalizado, precisa de apoio para se levantar. Certamente não foi correto o que fizeram com os escravos: dar-lhes a liberdade desacompanhada de qualquer meio de subsistência.

Mas as políticas de inclusão devem objetivar a felicidade das pessoas VIVAS. Se o tataravô do europeu matou o tataravô do índio, isso não tem conserto, e a pena não pode passar da pessoa do acusado.

A pior coisa a fazer é dar aos marginalizados uma reserva, da qual nem são donos, onde passarão fome do lado de dentro, e serão discriminados do lado de fora. Os índios precisam de ajuda, mas o objetivo final dessa ajuda tem de ser a integração com o resto dos brasileiros. Se eles realmente quiserem, podem então comprar a sua "reserva", e serão seus donos legítimos.

Sexta-feira, Abril 11, 2008

Safadeza bioenergética

Nos últimos dias, tem aparecido uma enxurrada de reportagens colocando a culpa da inflação e do encarecimento dos alimentos nos biocombustíveis. Sinto cheiro de safadeza no ar.

Pra variar, o Lula falou bobagem quando inquirido a respeito ("os alimentos estão caros porque os pobres agora estão comendo e há muita demanda"). Será que antes os pobres comiam pedras? Ou será que disse isso pra corroborar o abobado do Hugo Chavez, que também debita o desabastecimento venezuelano à mesa farta dos pobres? Será que os pobres venezuelanos comiam 600 calorias e agora comem 5000? 

Tanto o Lula tem convicção que se passa fome no mundo livre, que ele tentou censurar o IBGE, quando em 2003 este órgão falou que menos de 2% dos brasileiros estavam realmente "na zona de insegurança alimentar".

Mas, em seguida o Lula falou algo muito acertado: não venham culpar a produção de biocombustíveis pela inflação dos alimentos. 

De fato os alimentos estão ficando caros, mas isso tem outras razões:

1) O petróleo está muito caro. Esta é a mais importante razão. Não é só por causa do diesel dos tratores. Fabricar adubo demanda MUITA energia, tanto assim que nitrato de amônia também serve como explosivo.

Ou seja, o petróleo é a principal causa do aumento dos alimentos, e justamente os biocombustíveis, que concorrem com o petróleo e têm potencial de segurá-lo num preço suportável, é que estão levando a culpa. Cheira a safadeza, no mínimo uma inversão de valores. 

Tanto que o primeiro a se manifestar contra biocombustíveis foi quem? O Hugo Chavez. Porque a Venezuela depende das vendas de petróleo, e se aparecer uma alternativa, ela retorna à sua insignificância. Outro que falou mal dos biofuels foi o Fidel Castro -- porque Cuba depende financeiramente da Venezuela. 

Eu cresci ouvindo histórias de como as Sete Irmãs da indústria petrolífera estadunidense davam um jeito de sabotar projetos de energia alternativa. Que vergonha a sabotagem agora partir de alegados socialistas...

Ok, vamos ser honestos com eles. É natural que ambos falem mal de qualquer alternativa séria ao petróleo; eles têm de vender seu peixe. Se a energia eólica mostrar-se uma alternativa boa, eles vão condená-la porque ela mata passarinhos e borboletas. Mas isso é tão digno de confiança quanto a conversa de um vendedor de carros usados.

Dois dos alimentos que mais andaram subindo foram trigo e feijão. Que eu saiba, nenhum dos dois pode ser usado para fazer biocombustível, e nem mesmo competem pelas áreas de terra que poderiam ser usadas para plantar cana-de-açúcar.

2) Os alimentos têm estado num preço historicamente baixo, há muitos anos. Tanto assim que o setor agrícola tem dependido de subsídios para sobreviver, no mundo todo. 

Agora que o pessoal do campo conseguiu tirar o pé da lama, a galera começa a reclamar (de barriga cheia)...

Volto ao exemplo do feijão. Eu sei o trabalho que dá cultivá-lo e prepará-lo para consumo, e sempre me perguntei porque era tão barato. Agora está num preço que remunera o trabalho. Mas todo mundo reclama que "está caro!". Reclamar é fácil. As pessoas, mesmo as mais pobres, gastam $500 num celular chique, construído aos bilhões de forma automatizada. Mas não podem pagar mais que $3 por um kg de feijão que dá pra fazer quase um metro cúbico de feijoada...

Até algo aparentemente não relacionado pode estar ajudando: o Bolsa-Família. Muita gente desistiu de trabalhar como agricultor em lugares pouco produtivos como sertão nordestino, porque receberia menos que o BF. (Feijão é uma cultura comum no Nordeste.) Nesse caso, alguém poderia dizer que o BF causa inflação... 

Sejamos francos, se o sujeito não consegue ganhar 80 reais por mês trabalhando dia após dia numa lavoura,  é melhor que receba o BF e procure outra profissão. Quem é sádico o suficiente para dizer que BF "causa falta de mão-de-obra agrícola" deveria ser obrigado a plantar feijão recebendo $80/mês.




Quinta-feira, Abril 03, 2008

Dona Nenê, a culpada pelo subdesenvolvimento brasileiro

Assistindo à reestréia da Grande Família e às freqüentes intervenções da Dona Nenê em favor do genro safado, lembrei de uma história de família.

Um tio meu, muito religioso e bondoso (devo meu primeiro emprego a ele), construiu uma casa de madeira para o irmão da esposa -- por este último ser pobre, não ter onde morar etc. Faltou apenas pintar a casa; a tinta seria fornecida pelo meu tio, mas o dono da casa é quem deveria fazer o serviço.

Adivinhem: o tal cunhado nunca requisitou a tinta nem pintou sua própria casa. Mas quem já teve casa de madeira, sabe bem: sem pintura, ela se acaba em poucos anos. Foi o que aconteceu com a casa desta história.

Aí meu tio recebe a visita da sogra, e ela choraminga dizendo que "meu filho está ficando sem casa", que "os que têm mais devem dar aos desafortunados"...

Assim como a "mãe judia" tão comumente citada na literatura (eu tenho uma), a "mãe Dona Nenê" também merecia ser uma definição da literatura.

Como eu já disse em outros posts, gosto muito de viajar, e gosto de revisitar os mesmos lugares de tempos em tempos para ver o que mudou. Existe um bolsão de pobreza em Campo Alegre/SC que está lá desde o tempo que eu não tinha automóvel. Adivinhem: está do mesmo jeito que o vi da vez primeira! Casas sem pintura, sem reboque, tudo bagunçado...

Se em 15 anos o mesmíssimo lugar e as mesmíssimas casas não ficaram nem um pouco mais arrumadas, isso não é conseqüência de pobreza. Isso é desleixo e descompromisso com o lugar onde moram. Das duas uma: 1) as pessoas tratam de fugir dali tão logo melhorem de vida, dando lugar novos moradores descomprometidos; ou 2) elas não querem melhorar sua condição. E se não procuram melhorar algo óbvio como sua própria casa, o que dizer da sua vida profissional e da educação que darão aos filhos?

Ortogonal a isto, gosto de medir minha admiração por uma pessoa através do "teste da ilha deserta". A idéia é a seguinte: imaginar que você caiu numa ilha deserta, com inúmeras coisas por fazer para garantir a sobrevivência. Como aquela pessoa se comportaria? Ela começaria a tomar providências, ou sentaria e começaria a choramingar seu azar?

Talvez minha amostra seja viciada, mas todas as pessoas ricas que conheci passam nesse teste. Se caíssem numa ilha deserta, começariam imediatamente a construir uma casa, dar um jeito de conseguir água potável, delegando tarefas a cada um, etc. Dariam um jeito de ser "ricas" novamente, tanto quanto isso é possível numa ilha deserta.

Por outro lado, pouquíssimas pessoas em má situação passam neste teste. (Mas algumas passam. Existe gente por aí que ainda não teve sua chance.)

Partindo do pressuposto que todos os povos são iguais no DNA (e eu acredito nisto, apesar de muita gente me pespegar a pecha de nazista), e não podendo ser a pobreza culpada por desleixo que atravessa décadas, só nos resta botar a culpa na cultura do brasileiro típico.

O fato é que se você pegasse os favelados do Rio de Janeiro e lhes desse um novo planeta, só para eles, acabariam construindo outras favelas, estabelecendo relações de poder na base da porrada, e matando uns aos outros, como já fazem hoje. É muito duro pensar nesses termos, mas o fato é que as pessoas são escravas da sua cultura, e não "dos ricos" ou do dinheiro. O aluguel de um barraco na Rocinha custa R$ 300 -- o mesmo que o aluguel de uma casa aqui onde moro. Definitivamente o problema da favela não é só falta de recursos.

Minha opinião é que o brasileiro não é nem mais preguiçoso nem mais desonesto que os outros povos do mundo. E o favelado médio não é pior que o "do asfalto". O problema está no feedback, na forma que a cultura de cada lugar lida com as laranjas podres. E nisto, nós brasileiros erramos feio; tentamos achar conspiração onde muitas vezes só existe incompetência.

Quando alguém rouba, é porque era pobre. Se não era pobre, é porque foi maltratado quando era pequeno. Se não foi maltratado, foram as más companhias. Se não foram as más companhias, foi a mídia que pressionou-o a consumir bens luxuosos. Sempre procuramos evitar a alternativa mais simples e mais óbvia: que talvez o próprio ladrão seja uma má pessoa.

Predomina na família brasileira a cultura da "Dona Nenê": tirar dos trabalhadores e bem-sucedidos, para dar aos "coitados" que na maioria das vezes são apenas preguiçosos.

Muitos atribuem a culpa dessa cultura "Dona Nenê" à Igreja Católica. Eu mesmo já concordei com essa afirmação, porém os católicos de outros países falham em caber nesse estereótipo. Os irlandeses católicos nos EUA estão no topo da pirâmide social, a Itália é um país com economia maior que a da Inglaterra...

Creio que essa cultura de igualitarismo a todo custo, misturada com forte dose de fatalismo, é na verdade um traço medieval. O Brasil ainda está na Idade Média em muitos aspectos.

Um outro aspecto interessante é que, bem ou mal, as pessoas sobreviviam na Idade Média; do contrário, a humanidade estaria extinta. Ou seja, a cultura "Dona Nenê" funciona. Bem ou mal, ela mantém a família coesa. O Lineu não se sente mal na sua família, porque ele faz parte da mesma cultura. Ele sente-se feliz e útil sustentando o Tuco e o genro.

O problema torna-se explosivo quando duas culturas diferentes têm de conviver. Quando há uma favela aqui, e uma casa bonita logo ali. Aí reina a incompreensão, e muito mais do "pobre" em relação ao "rico" do que o contrário.

Muita gente, quando vê uma vizinhança ou uma cidade bonita e bem-cuidada, acha que aquilo nasceu do chão, ou que o governo é quem mantém aquilo tudo bonito. E voltam desolados para o seu bairro feio, imaginando quão injusto é o mundo.

O que essa gente não sabe sobre a cidade bonita, é que existe pressão social para que as coisas assim sejam. A prefeitura multa os proprietários de imóveis cujas calçadas estejam em má condição. O vizinho fala mal de você para todo mundo se seu jardim estiver mal cuidado, ou se sua casa estiver com a pintura queimada.

Será que aceitariam viver debaixo dessa pressão?