"Parente é serpente". Certamente todo mundo já ouviu este ditado ou pelo menos outra versão equivalente. Mas na verdade a má fama universal da "família estendida" é culpa de uma proporção relativamente pequena dos integrantes. Aqueles que, no meu entendimento particular, possuem um certo "germe da destruição", que possuem o toque de Midas invertido e arruínam tudo que tocam.
Certamente a sua família tem exemplos equivalentes; é assustador como a pelagem das ovelhas negras é uniforme. Todas pedem dinheiro emprestado e nunca pagam, todas gastam rapidamente qualquer dinheiro que possuam, todas põem a culpa na família pelos seus problemas, muitas entregam seus filhos para que outros parentes os criem.
Devemos aqui traçar uma distinção entre o "destruidor" e outros tipos de pessoa que às vezes parecem como ele. Existe o "sem-noção" que é aquela pessoa sem muita direção, embora honesta, trabalhadora e tudo mais. Existe o "preguiçoso", que mora feliz numa casa caindo aos pedaços e não se importa, nem incomoda nem culpa ninguém por isso. O "destruidor" destaca-se dos demais por conscientemente e consistentemente fazer o caldo desandar.
Vou contar apenas um caso que é fora do normal até mesmo em se tratando deste assunto. Meu pai só tem um irmão. Este cidadão sempre afirmou que meus avós eram ricos e que meu pai usurpou toda a fortuna deles. Para vocês terem uma idéia, meus avós praticavam agricultura de subsistência -- na cabeça do meu tio, eles "fingiam" serem camponeses no limite da pobreza. Naturalmente, isto também significa que tudo que eu tenho, inclusive o computador no qual estou escrevendo isto, é resultado do "roubo".
Meu tio é tão convincente quando diz tais coisas, que ele tem esposa e três filhos; e exceto por um deles, todos os demais escolheram acreditar nesta história, de modo que o relacionamento com esta tia e estes primos também era problemático, até cessar por completo.
Eu sempre digo que o único remédio contra as ovelhas negras é o isolamento completo. Muita gente me considera duro demais em relação a isto, mas eu tenho meus motivos. Lembro de, ainda adolescente, criticar a atitude conciliadora do meu pai em relação ao irmão dele. Minha mãe retrucou que meu pai construiria um muro de amizades no resto da família por conta da atitude.
Ela estava errada. Em relação ao meu tio, os demais parentes se dividem em dois grupos: os que "não se metem em briga de irmãos" e os que acreditam que "pelo menos uma parte do que o sujeito fala deve ser verdade". O pagamento que meu pai recebeu por ter cuidado dos pais dele e tolerado o irmão foram indiferença e desconfiança. E é exatamente isto que absolutamente todos os apiedados dos seus parentes perdedores recebem.
Eu acredito que os "destruidores" da família sejam na verdade doentes, mais precisamente psicopatas. Veja uma lista parcial de sintomas, compilada do livro "The Mask of Sanity" e de outras fontes da Web:
* Charme superficial e boa inteligência;
* Não ser confiável;
* Insinceridade, mentiras contumazes e às vezes inconsistentes. O psicopata pode falar longamente sobre como foi pular de paraquedas, e depois dizer "nunca andei de avião" (vide artigo SuperInteressante sobre psicopatia). (Aquele meu tio foi capaz de dizer que não pôde sacar uma verdadeira fortuna no banco porque "meu CPF estava muito velho");
* Falta de remorso e vergonha, sempre culpar os outros pelos seus problemas, e ser particularmente bom em inventar histórias plausíveis (porém mentirosas) que sustentem sua versão dos fatos;
* Comportamento antisocial sem motivo subjacente;
* Amoralidade. (Mesmo criminosos seguem um "código de honra"; psicopata não seguem nenhum.)
* Julgamento falho e não aprende com a experiência;
* Egocentrismo patológico e incapacidade de amar;
* Irresponsabilidade em relações interpessoais;
* Comportamento particularmente alterado e inadequado ao beber álcool;
* Ameaças de suicídio, mas nunca cumpridas;
* Dificuldade de seguir um plano de vida.
* O psicopata não tira vantagem consistente dos seus atos imorais; age aparentemente sem propósito. Um criminoso "normal" age em função de objetivos que até mesmo um não-criminoso entende como válido (ter dinheiro, status, segurança) embora não aprove os meios;
* A maior parte dos atos do psicopata parece ter como objetivo prejudicar-se a si mesmo.
Esta lista encaixa como uma luva nos "destruidores" da minha família, bem como nas famílias de conhecidos. E, ao que parece, não há cura para o problema, a começar porque o psicopata dificilmente entenderia que é doente. O cérebro dele é simplesmente construído de forma diferente.
Simetricamente, é igualmente difícil aos "normais" reconhecer que uma pessoa é psicótica. A gente sempre procura relações de causalidade e acha que a pessoa é assim porque era pobre, ou porque apanhou muito, ou porque apanhou pouco... e a cultura liberal da segunda metade do século XX ("não existem pessoas ruins") é um empecilho ao reconhecimento desta doença. Existe também a maldade do lado conservador, particularmente da direita cristã, que adoraria incluir itens como "promiscuidade sexual", "homossexualismo" e "ateísmo" na lista acima objetivando rotular grupos antagônicos como "doentes", já que rotular de "herege" está meio fora de moda.
E enquanto a confusão rola solta, os psicopatas continuam estragando a vida dos seus próximos e principalmente as suas próprias vidas. Principalmente dentro da família onde a tolerância é muito maior do que o mundo lá fora.
Segunda-feira, Março 09, 2009
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2 comentários:
Observação perfeita, principalmente os últimos parágrafos, faço apenas um pequeno comentário.
Há uma "mistura" de vocabulários, a sua descrição é de psicóticos sim, mas muitos aspectos são do que é chamado de psicopatia/sociopatia (que está "dentro" da psicose).
Só que tem psicóticos 'mansos' também, não que não se deva ter cuidado com esses também. "Uma mente brilhante" kind of stuff...
Interessante, nunca conheci gente assim :-)
Falando sério, a lista parcial de sintomas descreveria perfeitamente algumas pessoas que conheço, desde que ignorássemos o "charme superficial e boa inteligência" e o "comportamento antisocial". As pessoas autodestrutivas que conheço são invariavelmente burras, mas com comportamento social perfeito.
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