Segunda-feira, Abril 13, 2009

Literatura sobre o regime militar

Meu pai nasceu em 1946, e ele costuma dizer que livros realmente imparciais e bem escritos sobre a II Guerra Mundial só começaram a surgir depois dos anos 60. Provavelmente o mesmo vale para qualquer evento histórico: as feridas no corpo e no orgulho dos envolvidos precisam cicatrizar primeiro.

O (último período de) regime militar (1964-1985) tem, do ponto de vista do historiador, diversas características interessantíssimas. Uma delas é que muitos dos "players" da época, de um lado e do outro, ainda estão ativos na política. Outra é que dificilmente se encontra uma pessoa com posição neutra a respeito do assunto, o que por sua vez significa que é difícil encontrar literatura e mídia imparciais sobre o período.

A melhor bibliografia "de propósito geral" a respeito do período é a série de livros do Enio Gaspari: "As Ilusões Armadas". Já saíram quatro livros, e está para sair o quinto, que cobrirá o período do presidente Figueiredo até a redemocratização. (Certamente os esquerdistas contestarão esta literatura pelo fato do Gaspari trabalhar para a Folha de São Paulo, mas desafio qualquer um a apontar fonte melhor.)

Depois, temos os livros que aprofundam-se em aspectos específicos. Pessoalmente, possuo o "Operação Araguaia" (obviamente sobre a Guerrilha do Araguaia) e o "Autópsia do Medo", do grande jornalista Percival de Souza, sobre o Delegado Fleury.

"Que é isso, companheiro?" do Fernando Gabeira, e "Os Carbonários" do Sirkis, são também fontes preciosas, pois foram escritos por participantes ativos da oposição armada -- e que têm preocupação em olhar o passado de forma imparcial, sem rancor, o que é muito raro. Ainda não possuo o livro do Sirkis, mas pretendo comprá-lo assim que puder.

Depois, tem a literatura escrita no calor dos eventos, totalmente parcial, mas que indubitavelmente serve como "matéria-prima" histórica: "Batismo de Sangue" do frei Betto, "Brasil: Nunca Mais", "Ideais Traídos" e assemelhados.

Golpes fractais



O golpe de 64 é sui generis no Brasil e quiçá no mundo. Na verdade, foi um golpe "quádruplo". A verdade é que todo mundo já estava razoavelmente acostumado a quarteladas. O Brasil já tinha tido diversos golpes militares antes, a começar pela proclamação da República em 1889, já que Deodoro da Fonseca era militar. Em muitos aspectos, o Brasil retrocedeu, trocando uma monarquia constitucional por uma república de militares.

No entanto, a quartelada "normal" era: tomar o poder, surrar uns inimigos, depois devolver o controle aos civis, tudo em questão de semanas. Isto não ocorreu em 1964 porque foram dois golpes seguidos, um no dia 31/3 desfechado de forma caricata pelos militares mineiros (Mourão), outro no dia 1/4 desfechado pelos militares cariocas ligados ao movimento tenentista (Ernesto Geisel, Golbery, Castello Branco). Depois, houve mais dois intra-golpes: um em 1968, quando os "linha-dura" (Costa e Silva, Médici, Orlando Geisel), e em 1974, quando Ernesto Geisel recapturou o poder. Figueiredo mudou de grupo: era chefe do SNI sob Médici, e acabou virando o presidente da redemocratização em 1979.

De todos esses golpes, apenas o primeiro foi esperado e invocado pela classe média. Isto explica o rápido desentendimento entre os militares e a base civil de apoio ao regime. Os militares tinham idéias próprias e desconfiavam dos empresários quase tanto quanto dos estudantes. Uma das conseqüências foi estatização de quase todos os setores-chave da economia.

Estudar o regime militar também ajuda a entender outros episódios da história mundial. Por exemplo, a morte do Vladimir Herzog teve repercussão "militar" tão grande quanto a civil, embora oculta -- pois foi um sinal claro de que o DOI-CODI estava tentando justificar sua existência mesmo após a eliminação do terrorismo de esquerda. Nem que fosse como agência de terroristmo de direita.

Bem, e o que isto tem a ver com história mundial? Bem, o processo de "terrorização" de um órgão de repressão aconteceu na França, onde ex-militares da guerra na Argélia que não se conformavam com a independência da Argélia fundaram a OAS. Entre outras diabruras, a OAS tentou matar o De Gaulle para tomar o poder.

Curiosamente, o terrorismo de direita acabou mal lá e aqui. O último movimento da OAS foi contratar um assassino de aluguel para matar De Gaulle, mas o "contratado" embolsou o dinheiro e avisou a polícia. No Brasil, a bomba do atentado ao Riocentro explodiu antes da hora, e o vexame colocou os inconformados no seu devido lugar...

Falando em França, os esquerdistas adoram meter o pau nos EUA e apontar o apoio estadunidense ao golpe de 64. Mas foi a França, porto seguro dos exilados e meca do estatismo, quem forneceu o know-how da tortura, aperfeiçoado pelos franceses nas guerras coloniais da Indochina e da Argélia. Tanto agentes secretos franceses como revoltados da OAS deram as caras na América Latina para passar seu "conhecimento". E quem não acreditar, que leia "O Dia do Chacal" de Frederick Forsyth.

3 comentários:

Marcondes Witt disse...

Elvis, um livro que comprei há poucas semanas mas ainda não consegui ler: "Cães de Guarda - Jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988", de Beatriz Kusgnir, de 2004.
É a tese de doutorado dela, defendida em 2001, na Unicamp.
Aqui (http://www.viomundo.com.br/opiniao/unidade-caes-de-guarda-fala-da-midia-e-de-jornalistas-que-colaboraram-com-a-ditadura-militar/) entrevista da autora, comentando a idéia do livro

Tabgal disse...

Puxa vida, eu li o Dia do Chacal e não me lembro desses detalhes.

Só lembro de poucas coisas, da tradução mais ou menos, depois teve o filme, que bagunçou ainda mais.

Enfim, faz tempo que eu li :)

Anônimo disse...

Eu consegui (pirata, foda-se) a série do Elio Gaspari e comecei a ler aos poucos por motivos óbvios, doses pequenas. Até onde já li realmente é uma das fontes mais preciosas sobre o período, cobre anos antes ao golpe de 64 (foi um golpe de fato, se pra bem ou mal e de quem contra quem é preciso ler ao menos as 100 primeiras páginas pra entender) até o afrouxamento do regime. No momento estou na parte pós-golpe, ainda em 64. Recomendadíssimo mesmo.

Sobre Segunda Guerra e livros sobre o assunto, eu comprei o Postwar (em inglês é mais barato que traduzido, vale mais a pena) e também tô lendo aos poucos, da mesma forma. É um cavalo de umas mil páginas, mas é incrível a pesquisa histórica e distanciamento ideológico dos fatos que o autor teve pra fazer a bagaça. É um outro que recomendo, apesar de cobrir somente a história da Europa (de 45 até 2005, mas sempre tem desdobramentos locais, claro).

Enfim, me considero bem mais esclarecido sobre o assunto depois que arranjei ambas coleções, se alguém gostaria de algo assim pra ler eu recomendo os 2 na hora!

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caio1982

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