Terça-feira, Abril 14, 2009

Malandragem, burrice e racismo

Todo mundo já deve ter ouvido alguma versão da frase "um pau sozinho não queima"; "uma gaivota sozinha não faz verão", "quando um não quer, dois não brigam". A idéia por trás do ditado popular é que tudo tem dois lados, e que conflitos ou contendas têm sempre dois culpados, ainda que em medidas diferentes.

Cripple fight! De um lado do ringue, temos a estúpida proposta do Ministério Público de criar cotas para modelos negros no São Paulo Fashion Week.

E do outro lado, uma contendora à altura, a estilista Glória Coelho, que disse: "na Fashion Week já tem muito negro costurando, fazendo modelagem, muitos com mãos de ouro, fazendo coisas lindas, tem negros assistentes, vendedoras, por que têm de estar na passarela?" (fonte)

Um racista, e um anti-racista tentando usar o porrete da lei para tentar mudar o zeitgeist. Só pode dar em aniquilação mútua, e o problema do racismo permanece exatamente no mesmo lugar.

Noutro post eu já mencionei que o ser humano, enquanto indivíduo e também enquanto povo, precisa ser malandro. Até a Alemanha conseguiu fazê-lo quando perdeu a II Guerra: se fez de coitada, alegou que os nazistas eram um grupo minoritário e odiado mesmo dentro do país, que a culpa de tudo era no fundo do Tratado de Versalhes, que se a deixassem economicamente fraca a União Soviética ia comer tudo com farofa... E funcionou: a Alemanha saiu, proporcionalmente, muito menos penalizada da II Guerra do que na I Guerra, apesar de, por merecimento, devesse ter sido exatamente o contrário.

A falta de malandragem da estilista mencionada é óbvia: perdeu uma excelente oportunidade de ficar de boca fechada. Mas o que mais me chateia é a falta de malandragem dos movimentos anti-racistas. O agravante é que são justamente eles quem precisam ser mais espertos, pois defendem uma parte da população que está em desvantagem.

Talvez muitos leitores vão desqualificar minhas opiniões pelo fato de eu ser loiro de olhos azuis (a propósito, segundo o Lula eu também quebrei o sistema financeiro mundial. Desculpe aí, e valeu pela grana.) Mas talvez eu seja extremamente qualficado, pois eu sou o protótipo do cidadão a ser convencido pelo movimentos anti-racistas a deixar de ser racista. Eu não sou racista, mas já fui, então conheço bem a "tecnologia" e acho que posso dar umas dicas.

O conjunto de erros estratégicos do movimento negro tem, na minha opinião, nome próprio: Zumbi dos Palmares, e dou os meus motivos:

* Viés revisionista dos movimentos anti-racistas. Revisionismo, ainda que "justo", pega mal, e coloca o revisionista na mesma vala comum dos neo-nazistas que negam o Holocausto. Tenta-se empurrar Zumbi como um player central da história brasileira, coisa que ele não foi. E mesmo que tenha sido, ninguém está nem aí.

* O Quilombo dos Palmares estava perto de tornar-se uma vila reconhecida pelo Império, quando Zumbi tomou o poder e tentou resolver a coisa na base da porrada. E se deu mal. A falta de malandragem e esperteza nessa área já vem de longe, ao que parece.

* O movimento negro tenta empurrar ídolos indigestos como Zumbi, enquanto existem outros muito melhores à disposição -- André Rebouças, Antônio Rebouças, Cruz e Souza. A exceção é Lima Barreto, um grande escritor (Memórias de Policarpo Quaresma) que é rotineiramente lembrado pelos movimentos anti-racistas. Os engenheiros Rebouças tocaram obras e tiveram idéias com repercussões até os dias de hoje. (Já ouviu falar do Túnel Rebouças? Da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá? Pois é...)

* No tempo e no espaco, o quilombo dos Palmares está situado fora do radar da imensa maioria dos brasileiros. Não adianta tentar criar vínculos onde eles não existem. É como tentar empurrar Simón Bolívar como herói no Brasil.

* Diz um ditado que "se você atirar nas estrelas, vai acertar pelo menos na Lua". Isto nem sempre funciona. O movimento negro não procura o equilíbrio, mas sim o confronto, e cotas, e compensações. E isto pega mal, assusta, deixa o "inimigo" em guarda. Não é esperto.

* Estamos no século XXI e as desculpas históricas estão totalmente fora de moda, ainda que sejam justas! Essa conversa de tentar justificar o presente com o passado já encheu o saco. A vida não é fácil para ninguém.

* Do ponto de vista do movimento negro, o protótipo do branco é o senhor de escravos, e todo branco é assim considerado por eles. No entanto, boa parte da população branca, em particular no Sul, é descendente de imigrantes que vieram para o Brasil em condições não tão diferentes das dos escravos -- embora com a vantagem da cor e do século. Somos companheiros de infortúnio, não inimigos. (E mesmo que essa justaposição seja meio forçada, ela é simpática. Propaganda é a alma do negócio.)

Hora do café. Até a próxima.

4 comentários:

Ricardo Pascal disse...

" Estamos no século XXI e as desculpas históricas estão totalmente fora de moda, ainda que sejam justas! Essa conversa de tentar justificar o presente com o passado já encheu o saco. A vida não é fácil para ninguém. "

Nunca tinha percebido isso, mas realmente já encheu o saco. A partir de hoje quando for argumentar a favor das cotas, não vou mais citar o passado. Vou apenas citar o presente.

Anônimo disse...

O movimento negro não procura o equilíbrio, mas sim o confronto, e cotas, e compensações. E isto pega mal, assusta, deixa o "inimigo" em guarda. Não é esperto.

Sendo o branco "inimigo" do negro não é contraditório negar esta oportunidade de o negro combatê-lo com as políticas afirmativas e cobrar esta divida que o deixou nesta situação de indigente e patinho feio da história brasileira?

EPx disse...

E naturalmente o "inimigo" vai combater de volta, e com a vantagem de atirar de cima do morro. Não vai dar muito certo...

Anônimo disse...

Vi um bairro em que centenas de "casas modernas" tinham em seus batentes troncos de imensas árvores roubadas agora da selva amazônica e não mais da mata atlântica, e lembram bem as casas grandes e cenzalas em sua arquitetura. Seus moradores? Brancos; engenheiros, políticos brancos; traficantes brancos e negros; contrabandistas; professores; yuppies ... O poder público aluga muitas delas para suas atividades. Vê-se os negros, morenos, pardos, brancos pobres por seus corredores como empregados subalternos, subempregados, uniformizados, distintos, visíveis ... Há uma conspiração, ou um plano do "nimigo" para conservar uma situação dada e postergar pelo tempo necessário a condição de subalternidade de um grupo que foi barbaramente desrespeitado em seus mínimos direitos humanos?
Deixaremos o saco "dos negros do mundo" se encher e assim nos transformarmos em uma grande "Somália"?
Creio que o problema não é saber de onde vem os tiros, ou se eles virão de baixo ou de cima dos morros deste país. Certamente a solução esta em buscar as condições necessárias para integrar o negro, índios, brancos pobres, o brasileiro a uma vida digna e sustentável.

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