Terça-feira, Maio 12, 2009

Globo, multiculturalismo, Brizola

É um privilégio participar do #d00dz da Freenode. Vez por outra alguém solta uma frase inspiradora, como o GWM soltou esses dias, algo digno de tese de doutorado: "O Brasil é um país multicultural monocultura".

Ué, que significa isso? Significa que nós, brasileiros, só enxergamos como "multicultural" uma mistura bem específica de culturas e/ou origens, em proporções rigidamente prescritas. O que na prática resulta em monocultura. Se você, na sua cultura ou origem, desviar tanto na qualidade quanto nas proporções, é um "alien".

O mundo segundo a TV Globo é onde mais facilmente se observa esta multimonocultura. No Jornal Nacional, a sequência é sempre a mesma: tudo que interessa acontecendo em Brasília, tiros em RJ e SP, e alguma coisa exótica do Nordeste. Na visão do JN, o Sul não existe e as pessoas do NE não levam "vida normal". Do ponto de vista do Jornal da Globo, o NE também cessa de existir. Nas novelas, a religião oficial do Brasil é um composto de 70% catolicismo, 10% kardecismo e 20% macumbismo (que por si só é um composto das religiões afro-brasileiras, que por sua vez também são sincréticas -- eu não disse que a mistura seria simples!). E por aí vai.

E ai de você se não obedecer às proporções. Se você for 100% católico, é um "ultramontano". Se for 100% macumbeiro, é, bem, um "macumbeiro". Se for 100% kardecista, nem no kardecismo vai ter vida fácil porque a maioria lá é católica também. Se for ateu ou evangélico ou judeu então, nem brasileiro você é.

Note que isto não é uma crítica à Globo. Eu acredito em Rui Barbosa e, parafraseando a Águia de Aia, "cada povo tem a imprensa que merece". Apenas vou usar a Globo como exemplo porque todo mundo assiste.

Enfim, como eu já disse noutro post, o nosso melting pot cultural não esquentou o suficiente para criar uma monocultura de verdade. Do contrário, eu faria parte dela e não estaria aqui reclamando. A bem da verdade, o monoculturalismo brasileiro foi uma invencionice do governo, mais especificamente de Getúlio Vargas, que definiu o brasileiro de verdade como sendo o carioca, e o resto que imitasse, ou iria para a cadeia por quinta-coluna.

Para o bem ou para o mal, Getúlio Vargas foi o político mais influente do Brasil no século XX, inclusive porque seus herdeiros políticos foram Juscelino, Jango e Brizola, todos eles personagens importantes, em particular Juscelino. Pelas coisas boas e ruins do Brasil, estes são os grandes responsáveis.

Falando em Brizola, ele criticava de contínuo a TV Globo, por grande responsável pela massificação cultural e política. Prima facie ele tinha razão, acabamos de mostrar duas ou três facetas desta massificação.

O que ele "esquecia" de mencionar é que a Globo é produto e consequência de uma política de massificação cultural, imposta de cima para baixo na base da porrada (literalmente) pelo Getúlio, seu padrinho político. E o Brizola demonstrou várias vezes concordar com esta política: também ele sonhava com um Brasil homogêneo.

Tudo saiu conforme o Brizola queria, exceto que ele não acabou como o Grande Timoneiro porque os tenentes de 1930, que colocaram Getúlio no poder, puxaram o tapete da dinastia em 1964 :)

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