Terça-feira, Agosto 18, 2009

Quem conta um conto aumenta um ponto

Eu meio que me arrependi de ter postado sobre o acidente automobilístico que sofremos na quarta-feira passada. Muita gente tem passado aqui em casa perguntando se estamos bem, se ninguém se feriu etc. Noticiar o acontecimento muito "fresco" causou apreensão excessiva para nossos conhecidos, em particular porque ficamos fora até domingo, então ninguém tinha certeza de que estávamos realmente ok até ver-nos ao vivo e a cores. Teria sido melhor contar a história a posteriori.

Outro aspecto interessante da notícia ter corrido à nossa revelia, é que ela foi aumentando conforme correu de boca em boca. Na última versão, que finalmente tinha feito a "volta completa" na família e chegado novamente a nossos ouvidos, nós tínhamos viajado não para Jundiaí mas sim para Recife (de automóvel? São 3000km); que a polícia desconfiou que o Felix era uma criança raptada porque a Ana era "morena demais" para ter um filho tão claro (!) e que estávamos presos (!!) desde quarta passada, enquanto se providenciava a certidão de nascimento.

A família da minha mãe tem uma tradição bem consolidada de "aumentar" as histórias que conta, e acrescentar detalhes inexistentes. Já pensamos (eu e minha irmã) de aproveitar uma festa em que muitos parentes estejam reunidos, e fazer aquela brincadeira de contar uma história, e pedir para que o ouvinte conte para outro, e este para outro, e assim por diante, só para ver quão diferente ficaria a história "final". Infelizmente, as festas de família têm escasseado e não lembramos mais de fazer esta brincadeira. Mas ela acabou se realizando por si só :)

Antes que alguém pergunte, não estou chateado ou coisa do tipo. Pessoalmente também gosto de contar histórias carregando nas tintas. Senão, que graça tem? :)

Noves fora os exageros na retransmissão da notícia, foi legal saber que mais alguém da família lê meu blog, e de forma mais ou menos freqüente, já que souberam rápido dos acontecimentos. (Uma pessoa em particular, o tio Reinaldo, eu já sabia que lia. Vocês ainda vão ouvir falar dele, e da rádio pirata dele, neste blog.) Quando eu postei sobre o acidente, tinha mais em mente meus colegas de trabalho e do #d00dz, a quem eu tinha avisado do acidente muito laconicamente via Instant Messaging, e lhes devia uma explicação mais detalhada.

Blogs e seus defeitos

Novamente, um defeito do blog enquanto meio de comunicação ficou evidente. Ainda procuro um nome para este defeito, que por enquanto estou chamando de "censura reversa". Normalmente você fala coisas para pessoas próximas mas não gostaria de vê-las amplamente divulgadas. No caso do blog, o problema é inverso: você escreve coisas para o grande público, mas teme a interpretação de pessoas e grupos "próximos" a você. Aí, você começa a filtrar o que escreve em função destes últimos.

Até agora os "planets" eram minha maior nêmesis neste sentido. Você faz um post pessoal em português, aí seu post cai num planet em que a maioria posta em inglês e sobre assuntos "sérios". Não faz muito bem para sua imagem, faz você parecer maluco ou não-centrado, um peixe fora da água. Isto me levou a deixar o blog original apenas para assuntos de informática, e criei outros dois para assuntos pessoais e de finanças. Às vezes eu faço um "off-topic" mas é de caso pensado.

E no fim das contas, eu não posso reclamar muito porque eu também, enquanto leitor, interpreto textos de forma diferente conforme quem escreveu. Às vezes nem interpreto muito, basta ter sido postado por fulano ou sicrano para a opinião estar formada. Por exemplo, se o B****r postar qualquer coisa que seja, na minha cabeça o texto vai ser automaticamente associado a bacon, maionese e orgia alimentar.

O Twitter seria a priori uma válvula de escape, mas ele também acaba "contaminado" pelo mesmo problema, e ainda mais rapidamente. No fim das contas, para quem deseja escrever para o público mas sem restrição de nenhum tipo, tem de optar por um blog anônimo.

Há casos, raríssimos, em que um planet estimula a escrever ao invés de desencorajar. Tem o caso do Valeta, que por sinal agrega todos os meus blogs. Como cada agregado do Valeta acha que os demais são uma cambada de perdedores, há sempre aquela disputa para ver quem vai fazer o post mais irritante, que vai chatear o maior número de outros valeteiros. Chatear valeteiros é fácil; o verdadeiro desafio é fazer isso de modo que os posts lidos isoladamente (sem ser no contexto do Valeta) ainda façam sentido.

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