Sexta-feira, Setembro 25, 2009

Felicidade e o Cubo de Rubik

Depois de ler este artigo sobre a infelicidade feminina linkado pelo Rudá no Twitter, senti-me inspirado a escrever algo que já vinha cozinhando há algum tempo.

Quando eu era criança, fui apresentado ao Cubo de Rubik, ou "Cubo Mágico". Foi um hit dos anos 80, quase todo mundo já teve pelo menos um. Muita gente queimou as pestanas para resolver o quebra-cabeça, e pelo menos um conhecido desmontou o bicho para "resolvê-lo" à força.

Eu nunca gostei muito de quebra-cabeças nem sou bom em resolvê-los. Mas quando comecei a brincar com o cubo, tive a sensação de que, se eu resolvesse um dos lados do cubo, os outros iam estar automaticamente resolvidos. Resolver apenas um lado do Cubo de Rubik é fácil, em poucos minutos eu tinha conseguido e... surpresa desagradável: as outras faces estavam quase tão desorganizadas quanto antes. E pior, a mobilidade dos elementos ficou prejudicada, já que para tentar resolver outras faces eu teria de "estragar" a face já feita.

Esta impressão de que "resolva um problema e os demais caem juntos" deve ser algo embutido no senso comum, já que as pessoas, mesmo adultas, seguem cometendo o mesmo erro ao longo da vida. A linha do artigo surpracitado é mais ou menos esta: as pessoas elegem um Judas, e quando conseguem matá-lo, descobrem que os demais problemas não desapareceram junto com ele, e a vida não ficou magicamente cor-de-rosa.

Falando de forma mais pseudo-científica e afetada:

a) tendemos a ignorar a ortogonalidade dos problemas;

b) enxergamos correlações inexistentes;

c) resolver um problema tem o potencial de criar outros.

O artigo supracitado já fez a obra de salsicharia de relacionar este efeito à pública e notória infelicidade feminina, de modo que não vou repetir o raciocínio aqui. Me interessam outras instâncias do mesmo problema:

* Ações como Bolsa-Família não resolvem para sempre o problema da miséria, e tendem a perder a eficácia conforme o tempo passa, se desacompanhadas de outras ações;

* Na medida em que avança a liberdade e a justiça social, cessam os motivos para certos grupos de pessoas ficarem reclamando, e o fato é que muita gente faz da reclamação um meio de vida e forma de manter-se psicologicamente saudável. Quitar esse caminho vai fatalmente deixar algumas pessoas bastante infelizes.

* Cada vez que se extingue um preconceito, também se extingue um pretexto, e aumenta a responsabilidade pessoal dos individuais. Muita gente dita "discriminada" vai sentir-se ainda menos à vontade quando alguém lhe apontar o dedo e dizer: você está mal porque ASSIM O QUER.

* Incrementos na liberdade e na justiça social, bem como extinção de preconceitos, beneficiam a TODO MUNDO, inclusive àqueles que eram considerados "os opressores". À libertação feminina também correspondeu, silenciosa, uma libertação masculina equivalente. E muita gente fica ressentida disto. As mulheres se libertaram e os homens agora não pagam mais todas as contas -- que absurdo!

* Ideologias, movimentos sociais ou até formas de arte podem ser obsoletados, sem que seus participantes percebam. E para muita gente, a extinção de um movimento dói mais do que as mazelas que uma vez motivaram sua existência. Vide a MPB pós-regime militar. Vide o MST. Vide Richard Stallman. Dizem que até o neoliberalismo está morto (pago pra ver). E o método mais comum da negação da obsolescência é insistir numa utopia, no ótimo, no perfeito, esquecendo de que "o ótimo é o inimigo do bom".

Note que NÃO estou fazendo uma pregação reacionária, não estou proponto retornar ao status quo anterior em nenhuma das
"frentes" mencionadas. Qualquer coisa que aumente a liberdade, diminua preconceitos, aumente a justiça social etc. é sempre boa. Conforme eu disse no parágrafo anterior, é boa PARA TODO MUNDO. Apenas não é garantia de felicidade plena, universal e imediata.

3 comentários:

Rudá disse...

Quando se ganha igualdade geral, as pequenas diferenças acabam nos incomodando. Tipo, as promoções que os outros ganham e tu não ganhas, o teu amigo que ganha mais do que tu. Tem a ansiedade em querer conquistar tudo, porque afinal de contas, a liberdade nos faz crer que podemos ser ricos, não é?; dai vem uma certa frustração quando "não damos certos" e somos os losers da história. Andei lendo sobre isso, tem a ver com o post?

EPx disse...

É, aí já entra numa outra discussão, a "alergia psicológica". O ser humano tem uma necessidade de sofrer pra manter a estabilidade psicológica. Se a vida não causa sofrimento real, as pessoas começam a procurar cabelo em ovo pra ter do que reclamar.

Bianca disse...

Ai meu Deus > HOMENS...:)

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