Uma metáfora que de vez em quando utilizo para explicar a alguém sobre "como funciona a eletricidade", em particular sobre a diferença entre corrente (amperagem) e tensão (voltagem):
a) A corrente é a quantidade de elétrons que passa pelo fio, como automóveis andando numa estrada.
b) A tensão é a quantidade de energia que CADA UM desses elétrons carrega (como o número de pessoas que um carro está transportando).
Na verdade, não há metáfora, mas apenas comparação com o trânsito. Corrente é *realmente* a quantidade de elétrons em movimento (1A = 6.24 x 10^18 elétrons por segundo). Física nuclear usa muito a unidade "eletron-volt" (eV) para medir energia de partículas.
Mesmo livros de Física do 2o grau colocam a coisa em termos de "campo elétrico", "potencial elétrico", ou seja, tentam partir de um padrão muito alto e acaba que quase ninguém consegue realmente "enxergar" a eletricidade, e daí deduzir suas principais propriedades.
A metáfora hidráulica chega perto de ser boa para explicar eletricidade a leigos, só que a maioria das pessoas também não consegue visualizar que uma usina com desnível de 400m pode gerar o dobro de um desnível de 200m, dado o mesmo consumo de água.
Alguns fatos que tornam-se, a meu ver, fáceis de entender vendo a eletricidade como partículas carregando energia:
* Se 10 carros transportam 3 pessoas, ou 15 carros transportam 2, ou 30 carros transportam 1 cada, o resultado final é o mesmo: 30 pessoas transportadas. Fica fácil enxergar que potência = tensão X corrente.
* Elétrons ocupam espaço por serem matéria, mas energia, tal qual a luz, não ocupa. Assim, a energia dissipada num fio devido à sua resistência só depende do número de elétrons que está passando, pois apenas eles ocupam espaço. O que resulta na equação P=I^2.R.
Isto é análogo ao fato de um engarrafamento de trânsito depender apenas do número de carros, não do número de passageiros; e que a velocidade de tráfego não cai linearmente conforme aumenta o número de carros.
* Ainda sobre a resistência, o elétron precisa "gastar" parte da energia que carrega para "vencer" a resistência do fio. A quantidade de energia despendida depende apenas da corrente e da resistência, não da tensão.
Supondo uma corrente de 2A e uma resistência de 1 ohm, os elétrons perdem 2 volts ao passarem pela resistência, e a dissipação de energia vai ser 4 Watts. Não importa se a voltagem original dos elétrons era 2V, 3V ou 10000V; a perda é fixa, pois depende diretamente do fato dos elétrons "ocuparem espaço".
Nesse ponto, pode-se introduzir o conceito de "potencial elétrico", pois falta explicar POR QUÊ os elétrons se movimentam e transportam energia com eles. Aqui a metáfora hidráulica torna-se útil novamente, pois a água também flui apenas se existe um desnível. O desnível cumpre três papéis:
* é um dos constituintes da energia hidráulica, que faz e.g. mover uma turbina (trabalho = desnível X volume X peso da água)
* é o que faz a água fluir de um lugar para outro;
* "empurra" a água através de canos e estrangulamentos. Se dobrarmos a altura do desnível e mantivermos o duto de água exatamente igual, o volume de água que flui também dobrará.
A tensão também cumpre esse papel tríplice na eletricidade:
* define quanta energia cada elétron carrega;
* faz os elétrons andarem pelo fio numa direção só, coisa que normalmente não fariam;
* causa o aparecimento de uma corrente. Se a tensão dobrar e a resistência permanecer igual, a corrente também dobra.
Componentes da resistência
A metáfora hidráulica é ainda útil para entender "de onde vem" a resistência. Canos finos e fios finos são mais resistêntes à passagem de água e eletricidade (embora o motivo real disso seja muito mais complicado para a água). Dobrar o comprimento de um fio dobra a resistência, e assim por diante.
Tragédia dos comuns
Outra coisa que muita gente, inclusive professores, têm dificuldade de entender, é o seguinte "paradoxo":
a) Aumentar a resistência diminui a corrente, e portanto diminui a potência dissipada;
b) Se há duas ou mais resistências em série num circuito, a maior resistência dissipará a maior parte da potência.
Isto lembra a "tragédia dos comuns", onde a ação que beneficia um indivíduo torna-se altamente prejudicial se adotada por todos os demais. Se todas as resistências de um circuito série forem aumentadas de um certo fator, a distribuição entre elas permanecerá igual, porém a potência absoluta dissipada cairá por aquele mesmo fator.
O exemplo mais palpável é a resistência do chuveiro; a posição "quente" usa um segmento pequeno da resistência, enquanto a posição "fria" usa todo o comprimento dela. Isto vai contra o senso comum da maioria das pessoas.
Mesmo pessoas que conhecem a teoria caem nessa pegadinha, pois elas pensam na fórmula P=I^2.R e logo dizem "se a resistência é maior, a potência é maior". Esquecem que mudar a resistência vai mudar também a corrente. A fórmula correta a ser considerada neste caso é P=E^2/R, pois a tensão (E) não varia em função da resistência, e ainda deixa claro que diminuir a resistência aumenta a potência.
No mais, eu ia mencionar a história dos elétrons andarem apenas alguns centímetros por hora, e não na velocidade da luz (apenas a "pressão elétrica" desloca-se perto da velocidade da luz, como bolas de bilhar alinhadas transmitem o movimento para a última bola da fila), mas o Leoboiko já fez um comentário longo a este respeito, então... vide comentários :)
Sábado, Setembro 05, 2009
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2 comentários:
Elétrons se movimentam, e corrente = número de elétrons se movimentando. Até aí tá certo. O problema é, elétrons não carregam energia. Elétrons são massa, são parte das “coisas”. Fótons carregam energia. Pra falar como físico, fótons são o force carrier da força eletromagnética, que é uma das quatro forças fundamentais do universo, e da qual eletricidade é uma instância.
Uma maneira simples de ver isso é se perguntar: qual a velocidade na qual elétrons se movimentam? Se você parar pra pensar, logo vai perceber que os livros de segundo grau que falam 1) eletricidade “é” elétrons em movimento e 2) eletricidade viaja à velocidade da luz, estão mentindo. Elétrons são massa. Massa não viaja na velocidade da luz. Se você for pesquisar, vai descobrir que elétrons viajam pelos fios a alguns metros por hora — tão lento quanto uma lesma, ou o ponteiro de minutos do relógio. Isso no caso de corrente DC. Em corrente AC os elétrons nem viajam, só balançam pra lá e pra cá.
Mas quando você aperta o interruptor *alguma coisa* viaja na velocidade da luz, certo? Sim. Fótons. E aliás, por incrível que pareça, a energia elétrica não só é feita de fótons, como viaja FORA dos fios. Os diagramas que mostram o fluxo de fótons chamam-se de poyinting; exemplos aqui: http://amasci.com/elect/poynt/poynt.html .
Em outras palavras, existem dois fenômenos relacionados mas completamente distintos que o livro de segundo grau (e, decepcionantemente, a maioria dos de eletrônica e computação) chama pela mesma palavra, “eletricidade”. Eletricidade¹ é um fenômeno da massa, é feita de elétrons, viaja bem lentamente em círculos (ou dançando pra lá e pra cá sem sair do lugar), acontece dentro dos fios (surface charge), e é medida em amperes = columbos/segundo = número de elétrons/segundo. Eletricidade² é um fenômeno de energia, é “feita de” fótons, viaja à velocidade da luz ou próximo dela, da fonte para a carga, e é medida em watts = joules/s = uma medida de energia, da qual a unidade mínima (quantum), para esta força, é um fóton.
É incrível o quanto que isso é pouco divulgado, e o quanto resolve todos os problemas com o livro de segundo grau (e de eletrônica, &c.). Enquanto eu não sento pra escrever um post, algumas fontes são: a página do Bill Beats em http://amasci.com/miscon/elect.html ; os artigos com links no final de http://amasci.com/elect/poynt/poynt.html ; o livro QED, do Feynman; ou, de forma mais hardcore, as Feynman Lectures. Tanta coisa fica tão simples quando o Feynman explica (e.g. “carga elétrica” é simplesmente a probabilidade que uma partícula tem de emitir um fóton, e “campo eletromagnético” é um nome que os humanos dão a uma porrada de fótons sendo emitidos em um padrão previsível).
Talvez eu tenha sido verboso demais. Pra ir direto ao ponto, os problemas específicos com o modelo “elétrons carregam energia” são: elétrons viajam bem lentamente, energia bem rapidamente; elétrons ficam dentro dos fios, energia fora; elétrons andam em círculos (DC) ou “balançando” sem sair do lugar (AC), enquanto energia vai da fonte para a carga; energia pode passar por espaços vazios onde elétrons não passam (ver http://science.uniserve.edu.au/school/curric/stage6/phys/stw2002/sefton.pdf).
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