Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009

Um Carnaval perfeito

O feriado de terça-feira de Carnaval foi perfeito. Subi o morro e fui espiar túneis e pontes da ferrovia São Francisco, que liga São Francisco do Sul/SC a Mafra/SC. Trainspotting é talvez a coisa que eu mais gosto de fazer, tanto quanto lidar com computadores, de modo que quando eu ganhar na loteria, vou trabalhar de graça na ferrovia, só para me divertir.


A parte mais interessante da citada ferrovia é a subida da serra entre Corupá e São Bento, que aproveita os vales dos rios Natal e Vermelho. O trecho foi construído por volta de 1910 e a equipe foi quase a mesma da famosa ferrovia Curitiba-Paranaguá, de modo que as soluções de engenharia parecem-se bastante. Por exemplo, a ponte acima lembra a ponte sobre o rio São João perto do Marumbi.

"O morro estava uma uva", sem movimento algum nas ruas (todo mundo passando o carnaval na praia). Assim ficamos bem à vontade para entrar no mato e procurar obras de arte longe da rua.


O túnel acima é o maior dos cinco túneis do trecho, comprimento em torno de 350m e o único cavado na rocha pura, na base da picareta e da dinamite. Os demais túneis são revestidos de concreto pois a constituição dos respectivos morros é de argila. Este túnel da foto é em curva, você não vê nem sinal da luz no fim do túnel mesmo adentrando bastante.

Quando estávamos indo embora, falei para a Ana: "para ficar perfeito, só faltou o trem passar agora". Daqui a pouco, comecei a ouvir o inconfundível ruído, parecido com uma esteira de tanque de guerra. É engraçado como este ruído pode ser ouvido muito mais longe que o barulho do motor, ou qualquer outro emitido por um trem. E logo ele apareceu:


Na verdade seria difícil ouvir o motor porque o trem estava descendo a serra. Sei que a foto de trem-sobre-a-ponte-sobre-o-rio é batidíssima, mas sempre é agradável tirar uma foto dessas nós mesmos:


Legal mesmo seria se o trem estivesse subindo, porque eu também estava subindo e poderia pegá-lo em um milhão de outros lugares. Mas seria pedir demais à sorte, não é?

Para tornar o dia ainda mais perfeito, quando voltei a Joinville estava frio e chuvoso, para compensar o calor infernal dos últimos dias. Para minha satisfação sádica, a rodovia estava uma fila só no sentido praia-interior.


E a ALL ainda colocou uma cereja adicional no bolo, no fim do dia. Um pouco antes de chegar na casa dos meus pais para pegar o Felix, eu de novo falei pra Ana: "só faltava agora o trem passar de novo aqui". E adivinhem só, ele passou mesmo. Na verdade era o mesmo trem, embora com outras locomotivas (é, eu sou tão fanático que quase conheço as locomotivas "pessoalmente", pelo número).

BÔNUS: quem quiser ver o vídeo do trem-sobre-a-ponte-sobre-o-rio, aqui está:

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009

Direito, costume, moral, anarquia

"A democracia dos EUA é muito melhor que a do Brasil." A maioria das pessoas concorda com esta afirmação, geralmente apontando como prova cabal a durabilidade da mesma: os EUA estão sob o mesmo regime pra lá de 200 anos.

Mas a democracia dos EUA, até por ser velha, é visivelmente anti-democrática. Sem entrar profundamente no mérito, também vou apontar apenas uma prova cabal: a eleição indireta para presidente. Os eleitores elegem delegados, que por sua vez votam no presidente. Em geral, isto não faz diferença; em todas as eleições, os delegados votaram segundo o que o povo esperava. A idéia original deste esquema parecia ter um "plano B" caso o povo elegesse algum maluco, dando aos powers-that-be uma forma legal de barrar um candidato indesejável no tapetão.

Para os padrões da democracia moderna, isto soa totalmente indigesto. Mas a democracia estadunidense fica ainda mais engraçada quando se olha para o Judiciário deles. Quase todas as decisões são por júri. Juízes, xerifes e promotores são eleitos, não são concursados, dando margem para politicagem. A papelada dos processos é mantida arquivada pelos próprios advogados (!). As leis penais são diferentes em cada Estado. É muito difícil emplacar um recurso. Parece perfeito para que vigore a lei do talião bem como julgamentos totalmente parciais.

Na verdade, o direito anglo-saxão é mais baseado no costume do que na lei escrita, então é tudo de propósito.

No Brasil, as respectivas instituições são muito mais modernas e independentes do costume local. A eleição para presidente é verdadeiramente democrática: um homem, um voto. Embora haja discussòes sobre a adoção do voto distrital, isto seria um aprimoramento que diminui a força das "unanimidaes burras", não é algo que realmente ilegitime o critério atual.

Nosso Judiciário herda do direito romano. Só vale o que está na lei, o código penal é uniforme em todo o País. Juízes, promotores e delegados de polícia são concursados. Os processos são arquivados em Fóruns públicos. Existe ampla defesa e ampla possibilidade de recursos.

Pessoalmente, eu observo um padrão aqui. As instituições estadunidenses são toscas e mínimas, porém funcionam. As instituições brasileiras tentam ser perfeitas no papel, e acabam desabando sob seu próprio peso na prática.

No caso da justiça, se o povão quer talião, tem talião. Se amanhã mudar de idéia, a justiça reflete quase imediatamente essa mudança. É tudo muito tosco mas de fácil implementação, e mais importante, rápida renovação. No caso da eleição para presidente, talvez a existência do "plano B" ajude a esvaziar o discurso dos que defendam uma ditadura.

Enquanto isso, no Brasil construímos a democracia várias vezes, de forma tão esmerada que ela desaba sob seu próprio peso a cada 20 anos. A última Constituição não desabou porque foi essencialmente reescrita em voo. O conjunto das Emendas é muito mais volumoso que a Constituição original.

Não sou um Miguel Reale para julgar com sabedoria qual sistema é melhor. De qualquer forma, os juristas consideram o Direito alemão como o melhor do mundo. Ou seja, nem Brasil nem EUA levam a taça. Mas certamente deve ser fácil fazer um Direito bom num país onde obediência à lei é natural como respirar, além de ter uma população uniforme (até os imigrantes são uniformemente turcos) e culturamente avançada.

Eu tendo a acreditar mais num sistema judicial baseado no costume, como o dos EUA, por conta de outras convicções que cruzam com este tema.

Primeiro, eu não acredito em democracia, ou pelo menos não da forma que a maioria das pessoas acredita -- que adotar um sistema democrático resolva alguma coisa por si só. A democracia emerge da vontade do povo, e não o contrário. "Cada povo tem o governo que merece" -- Rui Barbosa.

O voto é na verdade uma simples formalidade. No Brasil, o voto é obrigatório porque assim cada cidadão tomou parte do processo eleitoral, e não pode excusar-se de respeitar a autoridade por não ter votado. Na verdade, o voto, obrigatório ou não, é exatamente isso: é um mecanismo que dá aos políticos a desculpa que "estamos todos juntos nisso". Mas não estamos. Políticos que realmente representam a vontade do povo? Eis a exceção...

Da mesma forma, as leis por si só não resolvem nada. Embora existam multas, prisões etc. para tentar fazer valer a lei, o Direito só funciona na medida em que 99,999% das pessoas concordem que as leis devem ser obedecidas. Na medida em que grandes contingentes ignorem alguma lei, ela vira letra morta. Afinal de contas, não se pode botar a população inteira na cadeia, né? (Alguns juristas alegam que os EUA estão a caminho, com 3% da população no xadrez).

Um exemplo de lei que é ostensivamente desrespeitada, apesar da pressão governamental, é o tráfico de entorpecentes. O tráfico de drogas é possível não porque ele corrompe ou porque ele dá muito dinheiro; é porque o uso de certas drogas ilegais (maconha, ectasy) é tolerado, e portanto o tráfico também o é. Até expressões que aludem ao uso de drogas estão amplamente incrustadas no colóquio -- mesmo quem nunca usou drogas usa gírias como "este é da lata", "direto na veia", etc.

Por mais que os juristas odeiem o atrelamento da lei à moral, o fato é que a lei só pode existir quando ela é suportada pelo costume e principalmente pela moral. Abaixo da moral, existem também outros fatores: a necessidade, as leis da Física, as leis da economia, e assim por diante. Sem este suporte, o arcabouço legal ou desaba ou é mantido de pé mediante fortíssima pressão, como no caso das ditaduras, que fatalmente desabam também.

Bem, se a lei não resolve nada, o que impede as pessoas de saírem aprontando por aí? Entra a moral e a pressão dos pares, que talvez sejam a mesma coisa, pois a moral é sempre um produto da cultura. O fato é que a pressão dos pares é a "lei" maior.

Um exemplo extremo que todo mundo vai entender (até os esquerdistas). No regime militar, um dos torturadores que trabalhava para o temido delegado Fleury pendurou as chuteiras no dia em que ouviu da própria filha: "O senhor é um robô, uma máquina de matar criada pelo Estado". Nem a lei, nem a religião, nem possíveis punições futuras, nem possíveis vinganças. nada disso impediu o sujeito de torturar. (Eu mesmo teria achado um barato dar uns tapas nos comunistas da época.) Mas a reprovação da filha fê-lo parar.

É assim que funciona. Passar vergonha, ser jogado no ostracismo, ser ridicularizado pelos pares, é o que realmente mantém as pessoas na linha. Basta abrir o jornal para encontrar inúmeros exemplos diários disto. É a decisão judicial revista por pressão da imprensa. É o político que renuncia apenas porque a sua corrupção tornou-se pública. É a parturiente atendida no hospital apenas porque os demais pacientes protestaram.

Parece que os anarquistas acreditam nisto, que a única punição existente numa sociedade anárquica seria o ostracismo. Parece-me que isto não restringe-se a uma utópica anarquia, mas é o que acontece aqui e agora.

Antes, eu disse que a moral e a pressão dos pares é a mesma coisa. Na verdade existe uma separação entre moral INDIVIDUAL e pressão dos pares. Como deve ser óbvio, a moral individual é o código de conduta que a pessoa adota para si. A pressão dos pares é a tentativa de impor a moral a terceiros.

Pode haver considerável desvio entre as duas: por exemplo, o sujeito pode exortar seus pares a seguir uma moral puritana, enquanto ele mesmo dá suas escapadelas sexuais. Alias, este padrão é a cara dos EUA, inclusive na sua política externa. Também é a cara dos evangélicos pentecostais -- o protótipo é a mulher que pinta o sete na vida, e depois torna-se evangélica, portanto "nascida de novo", portanto "virgem de novo" (costumo chamar isto de "virgem por software), e então se acha no direito de cobrar virgindade (de hardware) dos seus pares.

Igualmente esquito é o padrão contrário, onde o sujeito reserva para si uma moral mais rígida do aquela que ele exige dos seus pares. Infelizmente, esta é a cara do brasileiro. A suprema maioria dos brasileiros é honesta e trabalhadora, mas tolera a desonestidade e a preguiça alheia, sempre procurando motivos para "compreender" o próximo: ou ele era pobre, ou apanhava quando era pequeno, ou era explorado pelo patrão, ou tinha cinco filhos para criar, ou o vizinho era mais rico, ou estava com pressa, ou era branco, ou era preto, ou era índio, ou era "otoridade". A Dona Nenê do programa "A Grande Família" é o ícone desta equidade infinita que nos caracteriza.

Assim, desdentando o "peer pressure", o brasileiro abre espaço para a safadeza, mesmo sendo em geral honesto.

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009

EFEITOS DA CRISE: Moody's rebaixa credit rating de EPx.com.br

Hoje eu estou aborrecido, porque rebaixaram pra valer meu credit rating.

Fui no mercadinho aqui perto e, na hora de passar as compras no caixa, notei que um menino à minha frente entregou um cheque pré-datado (com a maior cara de borrachudo) para a caixa, uma senhora que é a própria dona do estabelecimento. Ela anotou o valor do cheque numa fichinha e guardou. Coisa típica de cidade pequena: as pessoas compram fiado e pagam quando entra o salário, ou a aposentadoria.

Como eu faço compras miúdas lá quase todo dia (pão, essas coisas) e é um saco passar o cartão toda vez, me ocorreu que poderia abrir uma conta também, assim como fiz no restaurante onde busco almoço. Como não gosto de dever nada a ninguém, minha conta no restaurante é "pré-paga", ou seja, eu pago adiantado um valor e vou comendo até zerar. Então comentei:

(epx) "Vocês abrem contas para clientes?"

(dona) "NÃO. Esse aí tem conta porque ... é cliente há seis anos já".

Ora, eu sou cliente há três anos pelo menos, e nunca paguei em cheque, muito menos um cheque borrachudo e encardido como aquele que o pirralho entregou a ela. Me senti um ex-presidiário. Mas armei-me de paciência e tentei de novo:

(epx) Pois é, eu tenho um esquema ali no restaurante, de conta pré-paga, eu pago um valorzão adiantado para não precisar passar o cartão toda vez...

(dona, com ar desinteressado) É, melhor né?

(epx) Sim, quando eu morava em Recife, a gente tomava café todo dia num lugar e a gente vivia pedindo pra eles abrirem uma conta PRÉ-PAGA pra gente não precisar catar moedas todo dia ... bla ... bla ... bla ...

(dona) é né

* epx desiste e vai embora

Enfim, meu crédito vale tão pouco na praça que nem mesmo pagando adiantado me querem... Mas falando sério, qualquer supermercado de médio porte oferece crédito aos clientes, na forma de cartão. Aliás, até posto de gasolina faz isso, e é até aborrecido, há um assédio forte para que você faça os tais cartões, já que praticamente garante que você continuará fazendo compras de novo e de novo no mesmo estabelecimento.

Agora, se o dono de um negócio não tem esperteza suficiente nem para receber dinheiro adiantado, o que esperar dele?

Eu tenho um amigo de esquerda que costuma dizer que os empresários choram por conta dos impostos, mas deixam de ganhar dinheiro mesmo é por burrice. Eu estou odiando ter de concordar com ele hoje.