Na última revista VEJA, o deputado Michel Temer foi o entrevistado das Páginas Amarelas.
Primeiro, a velhíssima desculpa que "os excessos são obra de poucos, mas a maioria é honesta". A mesma desculpa de sempre. Os torturadores dentre os militares também eram poucos, o que não impediu que o estrago fosse grande. Cabe à "maioria honesta" jogar os podres ao mar, ao que se não, torna-se conivente. Normalmente a maioria não faz nada, porque é conivente mesmo, e também não muito honesta.
Falando em regime militar, foi engraçado ver ele brandir este espantalho para tentar defender o Congresso. Segundo ele, um pouco antes do golpe de 64, a imagem do Congesso estava "com a imagem no chão, o que deu no regime militar" -- subentendida aí uma "imprensa golpista" que mina a imagem da democracia e pavimenta o caminho para uma ditadura. Alias, graças à base ampla do governo Lula, é a modinha criticar a imprensa. Mas deixemos isto de lado por um instante.
Voltando à afirmação do Temer, um leitor sagaz pode entender a relação de causa e efeito de forma bem diferente: as ditaduras florescem na lama do Congresso podre. O Congresso é o próprio culpado deste processo, como está sendo novamente agora. Esta visão tem a vantagem adicional de explicar porque alguns deputados foram tão aguerridos na oposição à ditadura: porque perderam privilégios e dinheiro.
Basta lembrar de Maquiavel: um homem esquece antes a perda do pai do que a da propriedade. Ou ainda daquela frase: "Quase todo homem pode suportar a adversidade; se quiser mesmo testar seu caráter, dê-lhe poder". O Congresso apanha feio neste teste.
Voltando à questão da imprensa, é divertido ver pessoas comuns, simpáticas ao Lula (eu mesmo votei nele), reclamarem que "a Folha é golpista" etc. O raciocínio delas é que, publicando mais notícias ruins do que boas, existe uma conspiração subjacente. Então essa conspiração deve ser mundial e existir desde o tempo de Gutenberg, porque imprensa nunca foi diferente. Não só jornais e revistas como também livros, incluídos os livros de História, vendem mais quando narram desgraças.
Dificilmente esse argumento de golpismo resiste à seguinte pergunta: "O que a imprensa noticia é verdade?" Geralmente é. Então não há o que reclamar; o papel da imprensa é justamente esse: chutar as pedras e ver se tem vermes embaixo.
O segundo argumento da turminha do golpismo é que a imprensa deveria ser "equilibrada", para "mostrar que as coisas estão na média melhores". Melhores na visão de quem? isso cabe ao julgamento da História e aos historiadores, e tal julgamento só pode ser feito muitos anos depois.
Outro argumento é que "a imprensa é tendenciosa". Isso é verdade, e é algo inevitável porque a interpretação de fatos instantâneos tem de ser feita à luz de uma concepção preexistente. A vantagem da democracia, maior que a do voto direto, é que cada periódico pode ser tendencioso de um jeito diferente. Dá para o observador imparcial "tirar uma média" e fazer um apanhado bastante imparcial do mundo.
É por isso que, talvez para a surpresa de muitos, eu leio Caros Amigos: embora a interpretação dos fatos seja a mais tendenciosa possível, os fatos subjacentes continuam sendo verdadeiros. E é importante saber o que pessoas com visão de mundo completamente diferente pensam dos acontecimentos.
Domingo, Abril 26, 2009
Sábado, Abril 18, 2009
Unidades de medida curiosas
"O bom dos padrões é que existem tantos a escolher."
Sempre achei curiosa a abundância de unidades de medida, e ainda mais curiosas as unidades "inversas", onde o valor expressa de forma inversa a coisa que está sendo medida. Os ingleses são notoriamente adeptos dessas unidades invertidas.
Como algumas pessoas preferem medidas diretas e outras as inversas, só posso deduzir que cada um tem um processo mental completamente diferente ao perceber o mundo à sua volta. (Daqui, poderíamos contestar a validade do sistema de educação baseado em escolas, onde 40 pessoas recebem o mesmo conteúdo da mesma forma. Mas não quero estragar meu sabado à noite pensando nisso.)
Exemplo de medida inversa: calibre de espingarda. "Calibre 12" significa que 12 esferas de chumbo do diâmetro do cano perfazem a massa de uma libra. Uma espingarda 32 terá o cano mais fino, pois a libra de chumbo precisa ser distribuída em 32 bolas, que naturalmente vão ser menores...
No mundo das finanças, a relação preço/lucro é uma das favoritas dos investidores fundamentalistas. P/L de 6 significa que a empresa lucra, por ano, $1 a cada $6 de valor de mercado. É o mesmo que dizer que sua lucratividade é de 16% ao ano. Só não soa tão "agiota" como uma taxa de juros :)
Fios têxteis, em particular de fibras naturais, não têm peso muito preciso em comprimentos pequenos, assim sua titulação (calibre médio) é baseado no comprimento e respectivo peso de uma quantidade razoável de fio (alguns quilômetros). Fios de algodão adotam o sistema inglês: fio 20, 24 e fio 30 são calibres comuns. O fio 30 é mais fino que o 20, pois este número significa o número de meadas que totalizam uma libra (1 meada = 840 jardas).
Já fios de seda e sintéticos adotam uma medida mais "civilizada" o dnier (gramas por 9000m). O fio dnier 20 é mais fino que dnier 40. Só não me pergunte porque o divisor é um número esdrúxulo como 9000m. Deve ter alguma relação com o bicho-da-seda.
O mundo ferroviário também é pródigo em unidades de medida essencialmente práticas, "de engenheiro" e não "de cientista". Por exemplo, os desvios (foto ao lado) têm em geral uma via que segue reta e outra que desvia em curva. Um nerd pensaria em descrever geometricamente este desvio com base no raio da curva -- quanto maior o raio, mais comprido é o desvio. Não estaria errado.
Mas a praxe ferroviária é expressar o desvio pela distância, em bitolas, entre o início do desvio e o ponto de cruzamento dos trilhos, aquele "X" formado pelos trilhos no meio do desvio. (A propósito, o nome daquilo é "coração" ou "diamante" do desvio).
No desvio da foto, a bitola do trilho é 1 metro, e a distância até o diamante é de uns 8 metros. Assim, este desvio é "tipo 8". Ao menos esta é uma unidade de medida direta e proporcional, pois quanto maior o número, mais comprido é o desvio e maior o raio da curva. A velocidade máxima do trem sobre o desvio também é linearmente proporcional ao número dele.
Mas a honestidade da medida do desvio é contrabalançada pela complicação da medida de curvatura. A curvatura é criticamente importante pois define que tipos de locomotiva ou vagão podem passar sem "entalar" ou descarrilar. Não interessa se a curva é uma espiral de 720 graus, importa apenas se a curvatura é suficientemente suave (ou seja, o raio está acima do mínimo exigido para o material rodante). Naturalmente, uma reta corresponde a um raio de curva infinito.
Em particular nos EUA e na Inglaterra (e aqui também, já que os ingleses construíram muitas das nossas ferrovias), a curvatura não é expressa em metros de raio, mas sim em "graus" -- o ângulo do setor circular correspondente a uma corda de 100 pés. Esta medida expressa curvatura de forma direta (quanto mais "graus", mais fechada é a curva), mas é inversa ao raio. De fato, uma reta tem zero graus de curvatura.
Parece uma unidade de medida idiota e impossível de "enxergar", mas provavelmente ela reflete as ferramentas com que as ferrovias primitivas eram construídas. A turma ia com pá, picareta, e (literalmente) uma corda ou corrente de 100 pés de comprimento. Esticava a corda daqui até ali, depois media o trajeto curvo, consultava a diferença numa tabela, e entortava os trilhos de acordo.
Certamente o peão semi-analfabeto do final do século XIX conseguia "enxergar" a corda muito mais facilmente do que o virtual centro da curva -- que estava 500m longe e flutuando no ar porque a ferrovia está sendo construída numa encosta de montanha.
A foto de satélite à direita mostra uma curva de 90m de raio, numa ferrovia da época, em terreno de montanha. Apesar das ferramentas primitivas, a curva saiu bem redondinha, e tem inclusive o "easing" (transição suave) na entradas das curvas para a curvatura não mudar tão bruscamente. O pessoal não brincava em serviço e já usava, empiricamente, curvas parabólicas baseando-se em tabelas para fazer as transições suaves.
Para calcular quantos "graus" de curvatura ferroviária tem uma curva de 90m de raio, temos de lembrar das aulas de trigonometria. Aproveitando que o nerds.valeta.org está cheio de neo-entusiastas de Python, vamos usar Python:
ou seja, uma curva de 90m de raio corresponde a aproximadamente 20 "graus". Mais apertado que... deixa pra lá.
Sempre achei curiosa a abundância de unidades de medida, e ainda mais curiosas as unidades "inversas", onde o valor expressa de forma inversa a coisa que está sendo medida. Os ingleses são notoriamente adeptos dessas unidades invertidas.
Como algumas pessoas preferem medidas diretas e outras as inversas, só posso deduzir que cada um tem um processo mental completamente diferente ao perceber o mundo à sua volta. (Daqui, poderíamos contestar a validade do sistema de educação baseado em escolas, onde 40 pessoas recebem o mesmo conteúdo da mesma forma. Mas não quero estragar meu sabado à noite pensando nisso.)
Exemplo de medida inversa: calibre de espingarda. "Calibre 12" significa que 12 esferas de chumbo do diâmetro do cano perfazem a massa de uma libra. Uma espingarda 32 terá o cano mais fino, pois a libra de chumbo precisa ser distribuída em 32 bolas, que naturalmente vão ser menores...
No mundo das finanças, a relação preço/lucro é uma das favoritas dos investidores fundamentalistas. P/L de 6 significa que a empresa lucra, por ano, $1 a cada $6 de valor de mercado. É o mesmo que dizer que sua lucratividade é de 16% ao ano. Só não soa tão "agiota" como uma taxa de juros :)
Fios têxteis, em particular de fibras naturais, não têm peso muito preciso em comprimentos pequenos, assim sua titulação (calibre médio) é baseado no comprimento e respectivo peso de uma quantidade razoável de fio (alguns quilômetros). Fios de algodão adotam o sistema inglês: fio 20, 24 e fio 30 são calibres comuns. O fio 30 é mais fino que o 20, pois este número significa o número de meadas que totalizam uma libra (1 meada = 840 jardas).
Já fios de seda e sintéticos adotam uma medida mais "civilizada" o dnier (gramas por 9000m). O fio dnier 20 é mais fino que dnier 40. Só não me pergunte porque o divisor é um número esdrúxulo como 9000m. Deve ter alguma relação com o bicho-da-seda.
O mundo ferroviário também é pródigo em unidades de medida essencialmente práticas, "de engenheiro" e não "de cientista". Por exemplo, os desvios (foto ao lado) têm em geral uma via que segue reta e outra que desvia em curva. Um nerd pensaria em descrever geometricamente este desvio com base no raio da curva -- quanto maior o raio, mais comprido é o desvio. Não estaria errado. Mas a praxe ferroviária é expressar o desvio pela distância, em bitolas, entre o início do desvio e o ponto de cruzamento dos trilhos, aquele "X" formado pelos trilhos no meio do desvio. (A propósito, o nome daquilo é "coração" ou "diamante" do desvio).
No desvio da foto, a bitola do trilho é 1 metro, e a distância até o diamante é de uns 8 metros. Assim, este desvio é "tipo 8". Ao menos esta é uma unidade de medida direta e proporcional, pois quanto maior o número, mais comprido é o desvio e maior o raio da curva. A velocidade máxima do trem sobre o desvio também é linearmente proporcional ao número dele.
Mas a honestidade da medida do desvio é contrabalançada pela complicação da medida de curvatura. A curvatura é criticamente importante pois define que tipos de locomotiva ou vagão podem passar sem "entalar" ou descarrilar. Não interessa se a curva é uma espiral de 720 graus, importa apenas se a curvatura é suficientemente suave (ou seja, o raio está acima do mínimo exigido para o material rodante). Naturalmente, uma reta corresponde a um raio de curva infinito.
Em particular nos EUA e na Inglaterra (e aqui também, já que os ingleses construíram muitas das nossas ferrovias), a curvatura não é expressa em metros de raio, mas sim em "graus" -- o ângulo do setor circular correspondente a uma corda de 100 pés. Esta medida expressa curvatura de forma direta (quanto mais "graus", mais fechada é a curva), mas é inversa ao raio. De fato, uma reta tem zero graus de curvatura.Parece uma unidade de medida idiota e impossível de "enxergar", mas provavelmente ela reflete as ferramentas com que as ferrovias primitivas eram construídas. A turma ia com pá, picareta, e (literalmente) uma corda ou corrente de 100 pés de comprimento. Esticava a corda daqui até ali, depois media o trajeto curvo, consultava a diferença numa tabela, e entortava os trilhos de acordo.
Certamente o peão semi-analfabeto do final do século XIX conseguia "enxergar" a corda muito mais facilmente do que o virtual centro da curva -- que estava 500m longe e flutuando no ar porque a ferrovia está sendo construída numa encosta de montanha.
A foto de satélite à direita mostra uma curva de 90m de raio, numa ferrovia da época, em terreno de montanha. Apesar das ferramentas primitivas, a curva saiu bem redondinha, e tem inclusive o "easing" (transição suave) na entradas das curvas para a curvatura não mudar tão bruscamente. O pessoal não brincava em serviço e já usava, empiricamente, curvas parabólicas baseando-se em tabelas para fazer as transições suaves.Para calcular quantos "graus" de curvatura ferroviária tem uma curva de 90m de raio, temos de lembrar das aulas de trigonometria. Aproveitando que o nerds.valeta.org está cheio de neo-entusiastas de Python, vamos usar Python:
>>> import math
>>> hipotenusa = 90
>>> cateto_oposto = 100 * 12 * 0.0254
>>> print cateto_oposto
30.48
>>> angulo = math.asin(cateto_oposto/hipotenusa)
>>> angulo * 180 / math.pi
19.795661008476333
ou seja, uma curva de 90m de raio corresponde a aproximadamente 20 "graus". Mais apertado que... deixa pra lá.
Terça-feira, Abril 14, 2009
Malandragem, burrice e racismo
Todo mundo já deve ter ouvido alguma versão da frase "um pau sozinho não queima"; "uma gaivota sozinha não faz verão", "quando um não quer, dois não brigam". A idéia por trás do ditado popular é que tudo tem dois lados, e que conflitos ou contendas têm sempre dois culpados, ainda que em medidas diferentes.
Cripple fight! De um lado do ringue, temos a estúpida proposta do Ministério Público de criar cotas para modelos negros no São Paulo Fashion Week.
E do outro lado, uma contendora à altura, a estilista Glória Coelho, que disse: "na Fashion Week já tem muito negro costurando, fazendo modelagem, muitos com mãos de ouro, fazendo coisas lindas, tem negros assistentes, vendedoras, por que têm de estar na passarela?" (fonte)
Um racista, e um anti-racista tentando usar o porrete da lei para tentar mudar o zeitgeist. Só pode dar em aniquilação mútua, e o problema do racismo permanece exatamente no mesmo lugar.
Noutro post eu já mencionei que o ser humano, enquanto indivíduo e também enquanto povo, precisa ser malandro. Até a Alemanha conseguiu fazê-lo quando perdeu a II Guerra: se fez de coitada, alegou que os nazistas eram um grupo minoritário e odiado mesmo dentro do país, que a culpa de tudo era no fundo do Tratado de Versalhes, que se a deixassem economicamente fraca a União Soviética ia comer tudo com farofa... E funcionou: a Alemanha saiu, proporcionalmente, muito menos penalizada da II Guerra do que na I Guerra, apesar de, por merecimento, devesse ter sido exatamente o contrário.
A falta de malandragem da estilista mencionada é óbvia: perdeu uma excelente oportunidade de ficar de boca fechada. Mas o que mais me chateia é a falta de malandragem dos movimentos anti-racistas. O agravante é que são justamente eles quem precisam ser mais espertos, pois defendem uma parte da população que está em desvantagem.
Talvez muitos leitores vão desqualificar minhas opiniões pelo fato de eu ser loiro de olhos azuis (a propósito, segundo o Lula eu também quebrei o sistema financeiro mundial. Desculpe aí, e valeu pela grana.) Mas talvez eu seja extremamente qualficado, pois eu sou o protótipo do cidadão a ser convencido pelo movimentos anti-racistas a deixar de ser racista. Eu não sou racista, mas já fui, então conheço bem a "tecnologia" e acho que posso dar umas dicas.
O conjunto de erros estratégicos do movimento negro tem, na minha opinião, nome próprio: Zumbi dos Palmares, e dou os meus motivos:
* Viés revisionista dos movimentos anti-racistas. Revisionismo, ainda que "justo", pega mal, e coloca o revisionista na mesma vala comum dos neo-nazistas que negam o Holocausto. Tenta-se empurrar Zumbi como um player central da história brasileira, coisa que ele não foi. E mesmo que tenha sido, ninguém está nem aí.
* O Quilombo dos Palmares estava perto de tornar-se uma vila reconhecida pelo Império, quando Zumbi tomou o poder e tentou resolver a coisa na base da porrada. E se deu mal. A falta de malandragem e esperteza nessa área já vem de longe, ao que parece.
* O movimento negro tenta empurrar ídolos indigestos como Zumbi, enquanto existem outros muito melhores à disposição -- André Rebouças, Antônio Rebouças, Cruz e Souza. A exceção é Lima Barreto, um grande escritor (Memórias de Policarpo Quaresma) que é rotineiramente lembrado pelos movimentos anti-racistas. Os engenheiros Rebouças tocaram obras e tiveram idéias com repercussões até os dias de hoje. (Já ouviu falar do Túnel Rebouças? Da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá? Pois é...)
* No tempo e no espaco, o quilombo dos Palmares está situado fora do radar da imensa maioria dos brasileiros. Não adianta tentar criar vínculos onde eles não existem. É como tentar empurrar Simón Bolívar como herói no Brasil.
* Diz um ditado que "se você atirar nas estrelas, vai acertar pelo menos na Lua". Isto nem sempre funciona. O movimento negro não procura o equilíbrio, mas sim o confronto, e cotas, e compensações. E isto pega mal, assusta, deixa o "inimigo" em guarda. Não é esperto.
* Estamos no século XXI e as desculpas históricas estão totalmente fora de moda, ainda que sejam justas! Essa conversa de tentar justificar o presente com o passado já encheu o saco. A vida não é fácil para ninguém.
* Do ponto de vista do movimento negro, o protótipo do branco é o senhor de escravos, e todo branco é assim considerado por eles. No entanto, boa parte da população branca, em particular no Sul, é descendente de imigrantes que vieram para o Brasil em condições não tão diferentes das dos escravos -- embora com a vantagem da cor e do século. Somos companheiros de infortúnio, não inimigos. (E mesmo que essa justaposição seja meio forçada, ela é simpática. Propaganda é a alma do negócio.)
Hora do café. Até a próxima.
Cripple fight! De um lado do ringue, temos a estúpida proposta do Ministério Público de criar cotas para modelos negros no São Paulo Fashion Week.
E do outro lado, uma contendora à altura, a estilista Glória Coelho, que disse: "na Fashion Week já tem muito negro costurando, fazendo modelagem, muitos com mãos de ouro, fazendo coisas lindas, tem negros assistentes, vendedoras, por que têm de estar na passarela?" (fonte)
Um racista, e um anti-racista tentando usar o porrete da lei para tentar mudar o zeitgeist. Só pode dar em aniquilação mútua, e o problema do racismo permanece exatamente no mesmo lugar.
Noutro post eu já mencionei que o ser humano, enquanto indivíduo e também enquanto povo, precisa ser malandro. Até a Alemanha conseguiu fazê-lo quando perdeu a II Guerra: se fez de coitada, alegou que os nazistas eram um grupo minoritário e odiado mesmo dentro do país, que a culpa de tudo era no fundo do Tratado de Versalhes, que se a deixassem economicamente fraca a União Soviética ia comer tudo com farofa... E funcionou: a Alemanha saiu, proporcionalmente, muito menos penalizada da II Guerra do que na I Guerra, apesar de, por merecimento, devesse ter sido exatamente o contrário.
A falta de malandragem da estilista mencionada é óbvia: perdeu uma excelente oportunidade de ficar de boca fechada. Mas o que mais me chateia é a falta de malandragem dos movimentos anti-racistas. O agravante é que são justamente eles quem precisam ser mais espertos, pois defendem uma parte da população que está em desvantagem.
Talvez muitos leitores vão desqualificar minhas opiniões pelo fato de eu ser loiro de olhos azuis (a propósito, segundo o Lula eu também quebrei o sistema financeiro mundial. Desculpe aí, e valeu pela grana.) Mas talvez eu seja extremamente qualficado, pois eu sou o protótipo do cidadão a ser convencido pelo movimentos anti-racistas a deixar de ser racista. Eu não sou racista, mas já fui, então conheço bem a "tecnologia" e acho que posso dar umas dicas.
O conjunto de erros estratégicos do movimento negro tem, na minha opinião, nome próprio: Zumbi dos Palmares, e dou os meus motivos:
* Viés revisionista dos movimentos anti-racistas. Revisionismo, ainda que "justo", pega mal, e coloca o revisionista na mesma vala comum dos neo-nazistas que negam o Holocausto. Tenta-se empurrar Zumbi como um player central da história brasileira, coisa que ele não foi. E mesmo que tenha sido, ninguém está nem aí.
* O Quilombo dos Palmares estava perto de tornar-se uma vila reconhecida pelo Império, quando Zumbi tomou o poder e tentou resolver a coisa na base da porrada. E se deu mal. A falta de malandragem e esperteza nessa área já vem de longe, ao que parece.
* O movimento negro tenta empurrar ídolos indigestos como Zumbi, enquanto existem outros muito melhores à disposição -- André Rebouças, Antônio Rebouças, Cruz e Souza. A exceção é Lima Barreto, um grande escritor (Memórias de Policarpo Quaresma) que é rotineiramente lembrado pelos movimentos anti-racistas. Os engenheiros Rebouças tocaram obras e tiveram idéias com repercussões até os dias de hoje. (Já ouviu falar do Túnel Rebouças? Da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá? Pois é...)
* No tempo e no espaco, o quilombo dos Palmares está situado fora do radar da imensa maioria dos brasileiros. Não adianta tentar criar vínculos onde eles não existem. É como tentar empurrar Simón Bolívar como herói no Brasil.
* Diz um ditado que "se você atirar nas estrelas, vai acertar pelo menos na Lua". Isto nem sempre funciona. O movimento negro não procura o equilíbrio, mas sim o confronto, e cotas, e compensações. E isto pega mal, assusta, deixa o "inimigo" em guarda. Não é esperto.
* Estamos no século XXI e as desculpas históricas estão totalmente fora de moda, ainda que sejam justas! Essa conversa de tentar justificar o presente com o passado já encheu o saco. A vida não é fácil para ninguém.
* Do ponto de vista do movimento negro, o protótipo do branco é o senhor de escravos, e todo branco é assim considerado por eles. No entanto, boa parte da população branca, em particular no Sul, é descendente de imigrantes que vieram para o Brasil em condições não tão diferentes das dos escravos -- embora com a vantagem da cor e do século. Somos companheiros de infortúnio, não inimigos. (E mesmo que essa justaposição seja meio forçada, ela é simpática. Propaganda é a alma do negócio.)
Hora do café. Até a próxima.
Segunda-feira, Abril 13, 2009
Literatura sobre o regime militar
Meu pai nasceu em 1946, e ele costuma dizer que livros realmente imparciais e bem escritos sobre a II Guerra Mundial só começaram a surgir depois dos anos 60. Provavelmente o mesmo vale para qualquer evento histórico: as feridas no corpo e no orgulho dos envolvidos precisam cicatrizar primeiro.
O (último período de) regime militar (1964-1985) tem, do ponto de vista do historiador, diversas características interessantíssimas. Uma delas é que muitos dos "players" da época, de um lado e do outro, ainda estão ativos na política. Outra é que dificilmente se encontra uma pessoa com posição neutra a respeito do assunto, o que por sua vez significa que é difícil encontrar literatura e mídia imparciais sobre o período.
A melhor bibliografia "de propósito geral" a respeito do período é a série de livros do Enio Gaspari: "As Ilusões Armadas". Já saíram quatro livros, e está para sair o quinto, que cobrirá o período do presidente Figueiredo até a redemocratização. (Certamente os esquerdistas contestarão esta literatura pelo fato do Gaspari trabalhar para a Folha de São Paulo, mas desafio qualquer um a apontar fonte melhor.)
Depois, temos os livros que aprofundam-se em aspectos específicos. Pessoalmente, possuo o "Operação Araguaia" (obviamente sobre a Guerrilha do Araguaia) e o "Autópsia do Medo", do grande jornalista Percival de Souza, sobre o Delegado Fleury.
"Que é isso, companheiro?" do Fernando Gabeira, e "Os Carbonários" do Sirkis, são também fontes preciosas, pois foram escritos por participantes ativos da oposição armada -- e que têm preocupação em olhar o passado de forma imparcial, sem rancor, o que é muito raro. Ainda não possuo o livro do Sirkis, mas pretendo comprá-lo assim que puder.
Depois, tem a literatura escrita no calor dos eventos, totalmente parcial, mas que indubitavelmente serve como "matéria-prima" histórica: "Batismo de Sangue" do frei Betto, "Brasil: Nunca Mais", "Ideais Traídos" e assemelhados.
O golpe de 64 é sui generis no Brasil e quiçá no mundo. Na verdade, foi um golpe "quádruplo". A verdade é que todo mundo já estava razoavelmente acostumado a quarteladas. O Brasil já tinha tido diversos golpes militares antes, a começar pela proclamação da República em 1889, já que Deodoro da Fonseca era militar. Em muitos aspectos, o Brasil retrocedeu, trocando uma monarquia constitucional por uma república de militares.
No entanto, a quartelada "normal" era: tomar o poder, surrar uns inimigos, depois devolver o controle aos civis, tudo em questão de semanas. Isto não ocorreu em 1964 porque foram dois golpes seguidos, um no dia 31/3 desfechado de forma caricata pelos militares mineiros (Mourão), outro no dia 1/4 desfechado pelos militares cariocas ligados ao movimento tenentista (Ernesto Geisel, Golbery, Castello Branco). Depois, houve mais dois intra-golpes: um em 1968, quando os "linha-dura" (Costa e Silva, Médici, Orlando Geisel), e em 1974, quando Ernesto Geisel recapturou o poder. Figueiredo mudou de grupo: era chefe do SNI sob Médici, e acabou virando o presidente da redemocratização em 1979.
De todos esses golpes, apenas o primeiro foi esperado e invocado pela classe média. Isto explica o rápido desentendimento entre os militares e a base civil de apoio ao regime. Os militares tinham idéias próprias e desconfiavam dos empresários quase tanto quanto dos estudantes. Uma das conseqüências foi estatização de quase todos os setores-chave da economia.
Estudar o regime militar também ajuda a entender outros episódios da história mundial. Por exemplo, a morte do Vladimir Herzog teve repercussão "militar" tão grande quanto a civil, embora oculta -- pois foi um sinal claro de que o DOI-CODI estava tentando justificar sua existência mesmo após a eliminação do terrorismo de esquerda. Nem que fosse como agência de terroristmo de direita.
Bem, e o que isto tem a ver com história mundial? Bem, o processo de "terrorização" de um órgão de repressão aconteceu na França, onde ex-militares da guerra na Argélia que não se conformavam com a independência da Argélia fundaram a OAS. Entre outras diabruras, a OAS tentou matar o De Gaulle para tomar o poder.
Curiosamente, o terrorismo de direita acabou mal lá e aqui. O último movimento da OAS foi contratar um assassino de aluguel para matar De Gaulle, mas o "contratado" embolsou o dinheiro e avisou a polícia. No Brasil, a bomba do atentado ao Riocentro explodiu antes da hora, e o vexame colocou os inconformados no seu devido lugar...
Falando em França, os esquerdistas adoram meter o pau nos EUA e apontar o apoio estadunidense ao golpe de 64. Mas foi a França, porto seguro dos exilados e meca do estatismo, quem forneceu o know-how da tortura, aperfeiçoado pelos franceses nas guerras coloniais da Indochina e da Argélia. Tanto agentes secretos franceses como revoltados da OAS deram as caras na América Latina para passar seu "conhecimento". E quem não acreditar, que leia "O Dia do Chacal" de Frederick Forsyth.
O (último período de) regime militar (1964-1985) tem, do ponto de vista do historiador, diversas características interessantíssimas. Uma delas é que muitos dos "players" da época, de um lado e do outro, ainda estão ativos na política. Outra é que dificilmente se encontra uma pessoa com posição neutra a respeito do assunto, o que por sua vez significa que é difícil encontrar literatura e mídia imparciais sobre o período.
A melhor bibliografia "de propósito geral" a respeito do período é a série de livros do Enio Gaspari: "As Ilusões Armadas". Já saíram quatro livros, e está para sair o quinto, que cobrirá o período do presidente Figueiredo até a redemocratização. (Certamente os esquerdistas contestarão esta literatura pelo fato do Gaspari trabalhar para a Folha de São Paulo, mas desafio qualquer um a apontar fonte melhor.)
Depois, temos os livros que aprofundam-se em aspectos específicos. Pessoalmente, possuo o "Operação Araguaia" (obviamente sobre a Guerrilha do Araguaia) e o "Autópsia do Medo", do grande jornalista Percival de Souza, sobre o Delegado Fleury.
"Que é isso, companheiro?" do Fernando Gabeira, e "Os Carbonários" do Sirkis, são também fontes preciosas, pois foram escritos por participantes ativos da oposição armada -- e que têm preocupação em olhar o passado de forma imparcial, sem rancor, o que é muito raro. Ainda não possuo o livro do Sirkis, mas pretendo comprá-lo assim que puder.
Depois, tem a literatura escrita no calor dos eventos, totalmente parcial, mas que indubitavelmente serve como "matéria-prima" histórica: "Batismo de Sangue" do frei Betto, "Brasil: Nunca Mais", "Ideais Traídos" e assemelhados.
Golpes fractais
O golpe de 64 é sui generis no Brasil e quiçá no mundo. Na verdade, foi um golpe "quádruplo". A verdade é que todo mundo já estava razoavelmente acostumado a quarteladas. O Brasil já tinha tido diversos golpes militares antes, a começar pela proclamação da República em 1889, já que Deodoro da Fonseca era militar. Em muitos aspectos, o Brasil retrocedeu, trocando uma monarquia constitucional por uma república de militares.
No entanto, a quartelada "normal" era: tomar o poder, surrar uns inimigos, depois devolver o controle aos civis, tudo em questão de semanas. Isto não ocorreu em 1964 porque foram dois golpes seguidos, um no dia 31/3 desfechado de forma caricata pelos militares mineiros (Mourão), outro no dia 1/4 desfechado pelos militares cariocas ligados ao movimento tenentista (Ernesto Geisel, Golbery, Castello Branco). Depois, houve mais dois intra-golpes: um em 1968, quando os "linha-dura" (Costa e Silva, Médici, Orlando Geisel), e em 1974, quando Ernesto Geisel recapturou o poder. Figueiredo mudou de grupo: era chefe do SNI sob Médici, e acabou virando o presidente da redemocratização em 1979.
De todos esses golpes, apenas o primeiro foi esperado e invocado pela classe média. Isto explica o rápido desentendimento entre os militares e a base civil de apoio ao regime. Os militares tinham idéias próprias e desconfiavam dos empresários quase tanto quanto dos estudantes. Uma das conseqüências foi estatização de quase todos os setores-chave da economia.
Estudar o regime militar também ajuda a entender outros episódios da história mundial. Por exemplo, a morte do Vladimir Herzog teve repercussão "militar" tão grande quanto a civil, embora oculta -- pois foi um sinal claro de que o DOI-CODI estava tentando justificar sua existência mesmo após a eliminação do terrorismo de esquerda. Nem que fosse como agência de terroristmo de direita.
Bem, e o que isto tem a ver com história mundial? Bem, o processo de "terrorização" de um órgão de repressão aconteceu na França, onde ex-militares da guerra na Argélia que não se conformavam com a independência da Argélia fundaram a OAS. Entre outras diabruras, a OAS tentou matar o De Gaulle para tomar o poder.
Curiosamente, o terrorismo de direita acabou mal lá e aqui. O último movimento da OAS foi contratar um assassino de aluguel para matar De Gaulle, mas o "contratado" embolsou o dinheiro e avisou a polícia. No Brasil, a bomba do atentado ao Riocentro explodiu antes da hora, e o vexame colocou os inconformados no seu devido lugar...
Falando em França, os esquerdistas adoram meter o pau nos EUA e apontar o apoio estadunidense ao golpe de 64. Mas foi a França, porto seguro dos exilados e meca do estatismo, quem forneceu o know-how da tortura, aperfeiçoado pelos franceses nas guerras coloniais da Indochina e da Argélia. Tanto agentes secretos franceses como revoltados da OAS deram as caras na América Latina para passar seu "conhecimento". E quem não acreditar, que leia "O Dia do Chacal" de Frederick Forsyth.
Sábado, Abril 11, 2009
Metonímia made in USA
Depois de muitos e muitos anos fuçando a respeito de trens e ferreomodelismo na Internet, de repente percebi um aspecto cultural interessante dos textos em inglês: o uso liberal de marcas comerciais ao invés dos nomes próprios das substâncias, implementos ou ferramentas.
Por exemplo, se você pegar dois textos a respeito da mesma coisa: simular um lago com água na maquete. Muito provavelmente, o texto em português vai mencionar como material de enchimento a "resina poliéster, encontrada em lojas de tintas". Já um texto em inglês, em particular se dos EUA, vai orientá-lo a encher o lago com "WhizBangDopeyPoly". Brasileiros cortam com estilete, americanos cortam com X-Acto. Até mesmo no caso do universalíssimo WD-40, o redator brasileiro vai tomar o cuidado de colocar entre parênteses "ou outra marca óleo fino penetrante". Até para comprar um LED o americano vai na "Radio Shack mais próxima", e não numa loja de eletrônica.
Desnecessário dizer que, para um estrangeiro como eu, o uso de marcas comerciais complica muito a leitura do texto, já que a suprema maioria destas marcas é nacional, não universal. É bem verdade que basta uma procura adicional no Google para descobrir a substância por trás da marca, mas isso torna o texto "pesado" de ler.
Qual será a origem deste hábito? Será que existe um monopólio para cada produto no mercado? Ou é simples falta de curiosidade a respeito dos nomes próprios e substâncias químicas?
Por exemplo, se você pegar dois textos a respeito da mesma coisa: simular um lago com água na maquete. Muito provavelmente, o texto em português vai mencionar como material de enchimento a "resina poliéster, encontrada em lojas de tintas". Já um texto em inglês, em particular se dos EUA, vai orientá-lo a encher o lago com "WhizBangDopeyPoly". Brasileiros cortam com estilete, americanos cortam com X-Acto. Até mesmo no caso do universalíssimo WD-40, o redator brasileiro vai tomar o cuidado de colocar entre parênteses "ou outra marca óleo fino penetrante". Até para comprar um LED o americano vai na "Radio Shack mais próxima", e não numa loja de eletrônica.
Desnecessário dizer que, para um estrangeiro como eu, o uso de marcas comerciais complica muito a leitura do texto, já que a suprema maioria destas marcas é nacional, não universal. É bem verdade que basta uma procura adicional no Google para descobrir a substância por trás da marca, mas isso torna o texto "pesado" de ler.
Qual será a origem deste hábito? Será que existe um monopólio para cada produto no mercado? Ou é simples falta de curiosidade a respeito dos nomes próprios e substâncias químicas?
Pequena gincana matemática
Você já tem filho? Se não tem, dê uma boa olhada na foto acima antes de fazer um. Cada potinho de comida para bebê tem custo não-trivial, e você vai comprar muitos deles, mesmo que você prepare comida ou papinha caseira sempre que puder.
Muito bem, a gincana é a seguinte: quem comentar primeiro neste blog o valor total exato das 2 "montanhas" de papinhas, ganha um vagão de trem Frateschi, com a pichação/assinatura do EPx. Vai demorar um pouco para entregar, eu ainda tenho de comprar o vagão etc. mas prometo que um dia entrego, então vamos relembrando das aulas de 5a série.
Os valores dos potinhos são: R$ 2,49 para o pote pequeno, R$ 3,49 para o médio, e R$ 6,99 para o pote grande. Não há diferença entre papinhas doces (tampa azul) e salgadas (tampa vermelha), só o tamanho voga no preço. Quem for tentar a sorte, anexe a memória de cálculo para ver onde você errou :D
Estes potinhos dão bons recipientes para geléia caseira, pois são de vidro (ou seja, ficam *realmente* limpos quando se os lava) e vedam bem. Já testei com um lote de amoras azedas demais para serem comidas in natura. Tendo sido feitas as fotos "comemorativas", vão quase todos os potinhos para uma micro-fabricante de geléias e compotas. Vou reter alguns apenas para algum uso futuro (talvez armazenar tintas).Falando ainda da (im)palatabilidade das papinhas, eu não lembro de ter visto nenhuma receita culinária que faça uso desses produtos, muito embora seja um produto comum e encontrado no mundo todo. Se alguém conhecer alguma receita, eu gostaria de ficar sabendo dela, e quem sabe tentá-la.
Quarta-feira, Abril 08, 2009
Um diorama, para quem não tem espaço para uma maquete ferroviária
Como alguns já sabem, eu gosto de trens e ferreomodelismo, e já tive uma maquete ferroviária. Não rolou continuar a maquete em Recife, e acabei desmontando-a. Mesmo tendo mudado novamente para uma casa, não dá pra recomeçar a maquete pois ela não vai combinar bem com um filho pequeno. A E. F. Nossa Senhora da Lama morreu, e não vai ressuscitar senão em uns 20 anos...
Resta exibir as locomotivas e vagões de forma agradável, criando um diorama ou móbile. O dioramaf é uma "maquete estática", sem a parte elétrica. O diorama retêm 90% da graça da maquete (construí-la, enfeitá-la e ter um pretexto para comprar vagões e locomotivas), com apenas 10% do aborrecimento e do custo (em particular, a parte elétrica de uma maquete é um SACO, principalmente se for corrente contínua pura, que exige trilhos limpíssimos).
E agora, eu tenho meu diorama, ainda num estágio inicial, com toda a parte de "empetecamento" por fazer:

Assim como fotógrafos de revistas pornográficas, todo ferreomodelista tenta usar alguns recursos fotográficos pra valorizar o subject e fazer a coisa parecer "real":

Tenho comprado estes vagões e locomotivas ao longo dos últimos 20 anos, e possuo inclusive algumas "raridades": uma locomotiva e três vagões da finada Atma. Não é um brinquedo caro; um vagão custa 20 reais, menos que um almoço no shopping. A não ser que seja um almoço no Eki com o Rodarvus ("Bitcho, comi uma tainha com colorau [nota do tradutor: tepan de salmão] que vale 10 real e a conta veio 65!). Neste caso, o almoço vale uns 3 vagões:

Me aventurei até a fazer um desvio, naturalmente um desvio estático. O par de desvios prontos custa 60 reais, meio caro para servir apenas de enfeite, embora o preço em si seja justo já que se tratam de desvios automáticos, com solenóide para comando remoto etc. Fiz um desvio do mesmo jeito que os ferroviários fazem: com pedaços de trilhos. Até que deu pra enganar:

No próximo desvio, vou estar mais tarimbado. Se fosse o caso, acho que já seria capaz de fazer um desvio móvel funcional na 4a ou 5a tentativa. Afinal de contas, é assim que os desvios são feitos na vida real, e tem de ser possível no mundo em escala...
A maioria do meu "material ferroviário" tem pinturas da ALL, que atua aqui na região.

Não sou muito saudosista nem estatista; não sinto saudade da RFFSA, como a maioria dos ferreomodelistas. Mas, como eu já tinha comprado diversos vagões antes da privatização, tenho o suficiente de RFFSA para formar uma composição magrinha, para pagar o tributo à história ferroviária. Também tenho alguma coisa da FEPASA e da venerável Companhia Paulista (justamente aqueles vagões da Atma).
Mas três coisas RFFSA-only moram no meu coração: a G12 com pintura vermelho-bordô da RFFSA, por ter sido tudo o que eu conhecia como "locomotiva" durante a minha infância (à esquerda na foto, RFFSA bem nítido pros esquerdistas e estatistas do Valeta experimentarem prazerosos espasmos lá mesmo onde vcs estão pensando):

Também moram no <3 o vagão de passageiros pintado de azul-céu que costumava vir no fim da composição; e a litorina de aço inox Budd, cuja miniatura só a Athearn dos EUA fabricava, e ainda assim não é igual (e ainda não possuo na minha coleção).
Ser saudosista é só pra se aborrecer de graça, pois as coisas mudaram muito no transporte ferroviário. O lance agora é 1 maquinista, 10 locomotivas e 150 vagões, carregados automaticamente no silo e descarregados automaticamente no porto. As estações ferroviárias existentes só atrapalham; os pátios do tempo da maria-fumaça são curtos demais para dois trens "cruzarem". Fora os radialistas-pastores-vereadores que reclamam sem cessar quando o trem manobra dentro da cidade. Para resolver isto, a ALL construiu pátios de cruzamento em regiões afastadas, onde é fácil fazê-los compridos, e entregou as estações para as Prefeituras.
Já existe "massa crítica" de ferreomodelismo no Brasil para haver micro-fabricantes de vagões especiais. Eles pegam um vagão fabricado e fazem pinturas novas em cima da casca original, alterações mecânicas para super-detalhamento ou transformação em outro modelo semelhante-mas-não-igual. Os vagões-tanque abaixo são "aftermarket":

A propósito, o site da fábrica de ferreomodelos brasileiros é a Frateschi. O site deles é meio Web 1.0, mas os modelos fabricados por eles são de boa qualidade, sendo inclusive exportados com pinturas de ferrovias estrangeiras.
Resta exibir as locomotivas e vagões de forma agradável, criando um diorama ou móbile. O dioramaf é uma "maquete estática", sem a parte elétrica. O diorama retêm 90% da graça da maquete (construí-la, enfeitá-la e ter um pretexto para comprar vagões e locomotivas), com apenas 10% do aborrecimento e do custo (em particular, a parte elétrica de uma maquete é um SACO, principalmente se for corrente contínua pura, que exige trilhos limpíssimos).
E agora, eu tenho meu diorama, ainda num estágio inicial, com toda a parte de "empetecamento" por fazer:
Assim como fotógrafos de revistas pornográficas, todo ferreomodelista tenta usar alguns recursos fotográficos pra valorizar o subject e fazer a coisa parecer "real":
Tenho comprado estes vagões e locomotivas ao longo dos últimos 20 anos, e possuo inclusive algumas "raridades": uma locomotiva e três vagões da finada Atma. Não é um brinquedo caro; um vagão custa 20 reais, menos que um almoço no shopping. A não ser que seja um almoço no Eki com o Rodarvus ("Bitcho, comi uma tainha com colorau [nota do tradutor: tepan de salmão] que vale 10 real e a conta veio 65!). Neste caso, o almoço vale uns 3 vagões:
Me aventurei até a fazer um desvio, naturalmente um desvio estático. O par de desvios prontos custa 60 reais, meio caro para servir apenas de enfeite, embora o preço em si seja justo já que se tratam de desvios automáticos, com solenóide para comando remoto etc. Fiz um desvio do mesmo jeito que os ferroviários fazem: com pedaços de trilhos. Até que deu pra enganar:
No próximo desvio, vou estar mais tarimbado. Se fosse o caso, acho que já seria capaz de fazer um desvio móvel funcional na 4a ou 5a tentativa. Afinal de contas, é assim que os desvios são feitos na vida real, e tem de ser possível no mundo em escala...
A maioria do meu "material ferroviário" tem pinturas da ALL, que atua aqui na região.
Não sou muito saudosista nem estatista; não sinto saudade da RFFSA, como a maioria dos ferreomodelistas. Mas, como eu já tinha comprado diversos vagões antes da privatização, tenho o suficiente de RFFSA para formar uma composição magrinha, para pagar o tributo à história ferroviária. Também tenho alguma coisa da FEPASA e da venerável Companhia Paulista (justamente aqueles vagões da Atma).
Mas três coisas RFFSA-only moram no meu coração: a G12 com pintura vermelho-bordô da RFFSA, por ter sido tudo o que eu conhecia como "locomotiva" durante a minha infância (à esquerda na foto, RFFSA bem nítido pros esquerdistas e estatistas do Valeta experimentarem prazerosos espasmos lá mesmo onde vcs estão pensando):
Também moram no <3 o vagão de passageiros pintado de azul-céu que costumava vir no fim da composição; e a litorina de aço inox Budd, cuja miniatura só a Athearn dos EUA fabricava, e ainda assim não é igual (e ainda não possuo na minha coleção).
Ser saudosista é só pra se aborrecer de graça, pois as coisas mudaram muito no transporte ferroviário. O lance agora é 1 maquinista, 10 locomotivas e 150 vagões, carregados automaticamente no silo e descarregados automaticamente no porto. As estações ferroviárias existentes só atrapalham; os pátios do tempo da maria-fumaça são curtos demais para dois trens "cruzarem". Fora os radialistas-pastores-vereadores que reclamam sem cessar quando o trem manobra dentro da cidade. Para resolver isto, a ALL construiu pátios de cruzamento em regiões afastadas, onde é fácil fazê-los compridos, e entregou as estações para as Prefeituras.
Já existe "massa crítica" de ferreomodelismo no Brasil para haver micro-fabricantes de vagões especiais. Eles pegam um vagão fabricado e fazem pinturas novas em cima da casca original, alterações mecânicas para super-detalhamento ou transformação em outro modelo semelhante-mas-não-igual. Os vagões-tanque abaixo são "aftermarket":
A propósito, o site da fábrica de ferreomodelos brasileiros é a Frateschi. O site deles é meio Web 1.0, mas os modelos fabricados por eles são de boa qualidade, sendo inclusive exportados com pinturas de ferrovias estrangeiras.
Bombeamento de finos
Domingo, Abril 05, 2009
Comendo sua própria comida
Segundo esta reportagem, o senador Cristovam Buarque submeteu um projeto de lei obrigando todos os políticos a matricularem seus filhos em escolas públicas.
O senador Demóstenes Torres (DEM-GO), ao invés de simplesmente e silenciosamente votar contra, perdeu uma excelente oportunidade de ficar de boca fechada e criticou o projeto dizendo que ele "vai jogar ainda mais a população contra o Senado" (como se o aborrecimento com o Senado fosse desarrazoado...).
O projeto é utópico, mas eu gostei dele, e acho que outras restrições semelhantes deveriam ser propostas. Não apenas os políticos, mas também todos os funcionários públicos deveriam estar sujeitos à mesma obrigação. E também a outras obrigações, como usar o sistema público de saúde.
No mundo da informática, costumamos dizer que devemos "eat our own dog's food". A tradução literal fica meio feia em português, e meio sem sentido (por algum motivo a língua inglesa adora expressões envolvendo cães e gatos), então prefiro a tradução livre "comer a comida que você mesmo prepara". A idéia é sermos capazes de deglutir a comida que oferecemos aos outros.
Eu gostei do projeto e gostaria de ver outros na mesma direção porque eles forçam a sociedade a olhar-se no espelho -- em particular a desonorável classe média brasileira que adora um emprego público mas foge dos serviços públicos como o diabo da cruz. Paradoxo ou reconhecimento da própria incompetência?
Note que o fato de eu ter gostado da idéia não quer dizer que eu gostaria de vê-la aprovada e implementada. Existe aí um equilíbrio delicado entre liberdade individual e as obrigações decorrentes do pertencimento a uma profissão ou a um clube. Em lugar nenhum do mundo este equilíbrio é perfeito e estático. Os escoteiros podem vetar gays? Padres deveriam poder casar? Juízes e políticos deveriam ter quebra automática de sigilo bancário? Seria justo cobrar mais impostos de loiros de olhos azuis, já que quebramos o sistema financeiro mundial?
Mas tem gente achando a idéia de "comer a própria comida" tão boa a ponto de implementá-la por sua conta e risco. Vi esses dias noutra reportagem que gente de classe média tem colocado os filhos em escola pública "para ter uma experiência de diversidade". Alguém copiou minhas idéias, mas neste caso não fico chateado... Também ilustra que leis e políticos andam sempre atrasados em relação à sociedade.
O senador Demóstenes Torres (DEM-GO), ao invés de simplesmente e silenciosamente votar contra, perdeu uma excelente oportunidade de ficar de boca fechada e criticou o projeto dizendo que ele "vai jogar ainda mais a população contra o Senado" (como se o aborrecimento com o Senado fosse desarrazoado...).
O projeto é utópico, mas eu gostei dele, e acho que outras restrições semelhantes deveriam ser propostas. Não apenas os políticos, mas também todos os funcionários públicos deveriam estar sujeitos à mesma obrigação. E também a outras obrigações, como usar o sistema público de saúde.
No mundo da informática, costumamos dizer que devemos "eat our own dog's food". A tradução literal fica meio feia em português, e meio sem sentido (por algum motivo a língua inglesa adora expressões envolvendo cães e gatos), então prefiro a tradução livre "comer a comida que você mesmo prepara". A idéia é sermos capazes de deglutir a comida que oferecemos aos outros.
Eu gostei do projeto e gostaria de ver outros na mesma direção porque eles forçam a sociedade a olhar-se no espelho -- em particular a desonorável classe média brasileira que adora um emprego público mas foge dos serviços públicos como o diabo da cruz. Paradoxo ou reconhecimento da própria incompetência?
Note que o fato de eu ter gostado da idéia não quer dizer que eu gostaria de vê-la aprovada e implementada. Existe aí um equilíbrio delicado entre liberdade individual e as obrigações decorrentes do pertencimento a uma profissão ou a um clube. Em lugar nenhum do mundo este equilíbrio é perfeito e estático. Os escoteiros podem vetar gays? Padres deveriam poder casar? Juízes e políticos deveriam ter quebra automática de sigilo bancário? Seria justo cobrar mais impostos de loiros de olhos azuis, já que quebramos o sistema financeiro mundial?
Mas tem gente achando a idéia de "comer a própria comida" tão boa a ponto de implementá-la por sua conta e risco. Vi esses dias noutra reportagem que gente de classe média tem colocado os filhos em escola pública "para ter uma experiência de diversidade". Alguém copiou minhas idéias, mas neste caso não fico chateado... Também ilustra que leis e políticos andam sempre atrasados em relação à sociedade.
Quarta-feira, Abril 01, 2009
Sem remédio de doido
Depois de uma redução progressiva de dose nos últimos 2 meses, estou sem tomar o tal do antidepressivo. O Lexapro já era meio fraco por si só, então o ramp-down transcorreu sem novidades. Vamos ver o que acontece daqui pra frente, controlando a ansiedade por software...
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