Segunda-feira, Janeiro 25, 2010

Familismo reverso

Segundo o livro "A Cabeça do Brasileiro", somos um povo familista. Familismo é dar mais valor às relações familiares do que às relações de amizade. Naturalmente, esta definição considera a "família estendida" de uma pessoa adulta (pai, mãe, irmão, cunhado, sobrinho) e não a "família nuclear" (cônjuge e filhos pequenos), já que esta última é (ou deveria ser) unida demais para sequer ser comparada a um laço de amizade.

O tal livro classifica o familismo como uma coisa ruim, pelo menos em nosso tempo, pois limita o "raio de ação" da pessoa, tanto geografica quanto culturalmente. Além disso, o laço familiar não é meritocrático (meritocracia é outro valor muito rarefeito na cabeça do brasileiro). Mas esta discussão está lá no livro. Os dois centavos de contribuição que pretendo dar em cima disso, é o caráter "reverso" que muitos brasileiros revelam em seu familismo.

O futebolista Edmundo, o Animal, teria dito uma vez que "todo jogador de futebol, logo que ganha o primeiro dinheirinho, compra uma Cherokee, uma loira e uma casa pra mãe". Não sei a frase é dele mesmo, mas ainda assim é costumeiramente atribuída a ele. Atenção ao grifo.

Por outro lado, falando ainda de jogadores de futebol, não passa uma semana sem a seguinte notícia: Decretada prisão do atleta Fulano por não pagamento da pensão alimentícia. O Romário é um dos habituées neste tipo de manchete.

Também vi em inúmeras ocasiões, nesses programas de auditório que distribuem prêmios, pessoas humildes dizendo o que iam fazer com a bolada: "comprar casa pra mãe" e"ajudar meus irmãos" estão sempre brigando pelo topo da lista de prioridades. Os sete filhos da sujeita terão de ser pacientes.

Será que deu pra enxergar um padrão aí?

Observando estes e muitos outros fatos, me parece que o brasileiro pratica um familismo invertido, que prioriza os personagens errados da família. Parece um traço cultural bonito, essa coisa de comprar casa pra mãe, mas na verdade é uma coisa feia.

Pelo menos na minha cabeça, a família é uma construção social cuja finalidade é cuidar da prole, com círculos concêntricos de responsabilidade: família nuclear, vertical, colateral, estendida, até chegar no grupo social e na nacionalidade. A responsabilidade primária é do pai e da mãe, mas se eles faltarem, haverá uma avó, uma tia, um padrinho.

Uma vez a criança tornando-se adulta, a utilidade e responsabilidade da família estão exauridas. Se os membros adultos de uma família mantém laços de amizade, isso é ótimo. Eu posso dizer, por experiência própria, que tenho muito mais afinidade com meu pai hoje, do que quando eu estava sob o pátrio poder. Mas isso é um bônus, uma agradável surpresa.

Tirante dívidas de gratidão, que não faz sentido pagar em dinheiro, pois muitas vezes são de tamanho infinito, não me sinto obrigado a coisa alguma em relação a meus pais. Minha obrigação é com meu filho enquanto incapaz; e com minha esposa que não trabalha fora para cuidar dele.

Se eu começasse a despender recursos comprando casa para a mãe, carro para a irmã, e extravagâncias assemelhadas de que a gente ouve falar, não estaria eu completamente errado em minhas prioridades? É pra frente que se anda.

O jogador de futebol que compra casa para a mãe durante sua (tipicamente breve) carreira, enquanto se esquiva de formar um patrimônio e/ou pagar pensão alimentícia, não está condenando seus filhos a um futuro sombrio?

Aliás, pensão alimentícia virou um dos bichos-papões da classe média. Todo mundo conhece uma história de horror a respeito do assunto. Um amigo recentemente contou-me que o juiz em certa ocasião arbitrou a pensão em 150% do seu salário. É certo que existem exageros, é certo que existem mulheres que fazem do títuo "ex-esposa" uma verdadeira profissão. Assim como muitos homens pagam 150 reais por mês de pensão para um filho e se consideram roubados e injustiçados. Em havendo exageros de parte a parte, acho que podemos supor que, na média, as pensões arbitradas são justas e condizentes com a obrigação moral de um pai manter sua prole.

Enfim, alguém vai estranhar estas minhas palavras, já que eu costumo afirmar que os pais não têm de "se matar" para dar luxo aos filhos. Nem estou advogando isso agora. Só acho que não faz sentido puxar o tapete da geração seguinte, e deixar de cuidar da própria vida, para fazer barretada à geração anterior.

Como diz o ditado popular, jabuti não sobe em árvore; se ele está lá, é porque alguém botou. É claro que esses comportamentos têm origem positiva, na educação. São as mães deste país, onde 1/3 dos nascidos não tem pai, que educam seus filhos para serem bons filhos, em vez de cumprirem seu papel e educar-lhes para serem bons maridos, bons pais e bons cidadãos.

7 comentários:

Sulamita disse...

Acho que é a primeira vez que leio alguma analise sociologica sensata no seu blog :)

andycds disse...

É engraçado você pensar que estas coisas são excludentes. Ou você ajuda os pais, ou os filhos. Isto talvez seja verdade em uma classe econômica baixa, o que certamente não é seu caso. Creio que seja perfeitamente possível ajudar os pais em determinados momentos e também receber ajuda deles em outros. Seria legal você mostrar este texto aos seus pais, para eles saberem com quem podem ou não contar na ocorrência de algum problema.

EPx disse...

@andycds: Primeiro, eu não estou falando de situações extremas, emergências, como um pai doente ou coisa do gênero. Nesses casos há inclusive a obrigação legal do filho ajudar o pai, e em nenhum momento eu sugeri que alguém cometesse desobediência civil. Segundo, estou pensando mesmo em gente com pouco dinheiro, que tem de optar quando a coisa aperta, e eu sustento que nesse caso tem de optar pelos filhos, sem piscar.

É óbvio que, se eu ganhasse na loteria, meus pais receberiam uma bolada também :) Mas como isso não aconteceu, e como meus pais fizeram sua lição de casa e cuidaram do seu pequeno patrimônio em vez de ficar agradando parentes, hoje eu estou de consciência tranquila e não preciso me preocupar com eles, estou livre para cuidar da minha própria família, CAPITCHE PAESANO?

EPx disse...

@Sulamita, valeu pela força :)

robteix disse...

Ei! Eu já vi esse tipo de coisa acontecer!

Jess C. disse...

Gostei do texto mas no Estante Virtual tem dois autores com livros que se chamam "A Cabeça do Brasileiro" (Mara Nogueira Kotscho e Alberto Carlos Almeida). Qual dos dois você cita? Fiquei curiosa e quero comprar.

Obrigada =)

EPx disse...

É o do Alberto Carlos Almeida, de 2007.

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