
Como disse um dos iluministas (Rousseu, Robespierre ou Voltaire, realmente não lembro qual dos três), "a lei é forte, porém mais forte é a necessidade". Enquanto a patética indústria nacional de informática ocupava-se de fazer computadores ruins e caros, unicamente voltados ao mercado das empresas estatais que eram obrigadas a comprar de fornecedores nacionais, empresas de verdade e pessoas normais também precisavam de PCs, mas não podiam pagar os 5000 dólares que um PC S!D custava.
Eu lembro o preço até hoje, porque fui pesquisar preços. Meus pais pensaram em me dar um PC em 1989, mas desistiram quando soube dos valores envolvidos. E para eles a opção de comprar algo contrabandeado simplesmente não poderia ser cogitada. No fim das contas, acabei ganhando um no fim de 1990, quando os PC "mercado cinza" tecnicamente legais porém de preço baixo o suficiente para causar suspeitas, começaram a aparecer em tudo que é lugar. 1700 dólares por um PC XT com 2 unidades de disquete, sem disco rígido. Um PC contrabandeado com disco rígido custava 1300 dólares na mesma época. Assim o Brasil tratava, e ainda trata, quem se interessava em desenvolver-se numa profissão. (Eu tenho esse defeito de nunca esquecer uma ofensa, podem criticar, não é bonito mesmo, but it's just me.)
Até o governo dava seu jeito de obter uns computadores um poquinhho melhores que as carroças nacionais. Por volta de 1993 a Receita Federal ou Polícia Federal, talvez as duas juntas, desencadearam diversas operações em empresas para apreender computadores contrabandeados. Muitas dessas máquinas acabaram em uso nessas repartições. Legalmente perfeito, mas moralmente... Este era o Brasil pós-confisco de Collor. Depois veio o FHC e a coisa passou a ser como em qualquer país civilizado do Ocidente, onde uma importadora pode trazer qualquer coisa, pagar o imposto e vender aqui. E tem gente que reclama do FHC, curte mais o Collor e o Sarney e o Lula em seu triunvirato anti-neoliberal.
Não apenas os informatas dependiam desse "canal de distribuição" para ter acesso à tecnologia. Segue um parágrafo introdutório do livro "A Ditadura Envergonhada" de Elio Gaspari: Este livro não existiria sem a ajuda de seis modelos de computadores surgidos durante o tempo que levou para ser escrito. Sinto-me no dever de registrar que, por conta da insana política de reserva de mercado, os dois primeiros chegaram à minha mesa pelos desvãos da alfândega. Aos contrabandistas da época, minha homenagem. Faço minha a última frase.
Uma outra coisa que o mesmo ex-patrão citado no início do texto dizia: quando um canal de contrabando é criado, é quase impossível fechá-lo.
O contrabando massivo de bens de tecnologia é hoje uma coisa obsoleta, visto que os mesmos objetos importados legalmente custam quase o mesmo. Muita, muita gente da nossa área não acreditava que o contrabando pudesse ser obsoletado de forma tão rápida. E a pá-de-cal foi dada pelo Lula, com a isenção de imposto sobre computadores de baixo custo, uma de suas maiores tacadas, se não a maior.
Mas certamente o caminho aberto para trazer computadores é hoje ocupado por produtos, menos necessários e mais insidiosos. Um ex-colega de trabalho foi "aposentado" em 2000 por ter sido pego e fichado; a próxima apreensão significaria cadeia. Na apreensão que o tirou do jogo, havia até um jet-ski! E ele já tinha trazido muitos deles até então. Isso foi em 1999 ou 2000; já naquela época o contrabando de computadores estava em declínio, e a turma precisava variar para ganhar a vida...
Certamente uma parte desse canal é hoje ocupado pelo tráfico de armas, talvez até de drogas, ambos merecedores de severa repressão. Agora não tem mais conserto e o jeito é reprimir tão bem quanto possível. Mas não podemos perder de vista o processo que criou o problema, e tentar não repetir o erro. Nenhuma quantidade de repressão seria capaz de conter o contrabando de computadores dos anos 1980, portanto também não seria capaz de evitar a criação do "caminho" e a sua posterior utilização moralmente condenável.

1 comentários:
Acho que a frase do segundo parágrafo é do Goethe.
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